Por Chiara Lombardi — Espresso Italia
Em 15 de fevereiro de 1898, nascia em Nápoles um dos rostos mais icônicos do teatro e do cinema italiano: Totò. Nascido no rione Sanità, o artista veio ao mundo com um nome que já parecia saído de um roteiro épico: Antonio Griffo Focas Flavio Angelo Ducas Comneno Porfirogenito Gagliardi De Curtis di Bisanzio. Esse conjunto nominal é, em si, um prólogo — a ante-sala de uma vida que atravessaria o século XX como espelho de seus contradições, risos e feridas.
Filho de Giuseppe De Curtis e de Anna Clemente, Totò nasceu de uma relação que, para a moral conservadora da época, era clandestina. Anna tinha apenas 17 anos quando deu à luz e, inicialmente, Giuseppe não reconheceu a paternidade. Assim se desenhou desde o princípio um paradoxo: um príncipe do riso forjado numa origem marcada por segredo e exclusão social — material perfeito para o desenvolvimento de uma persona artística capaz de transformar dor em comicidade, ironia e humanidade.
Mais do que a biografia, é interessante pensar no efeito simbólico dessa origem. Totò cresceu em um bairro popular de Nápoles, território de memórias coletivas e de uma tradição teatral que mistura ópera, canção e a comédia humana. Sua trajetória é, portanto, ao mesmo tempo pessoal e representativa: o rione Sanità não é apenas um endereço, é um cenário de formação cultural que alimentou seu timing cômico e seu entendimento da plateia.
Ao longo da vida pública, Totò também foi protagonista de romances que alimentaram a curiosidade pública. Entre eles, a relação com a soubrette Liliana Castagnola, frequentemente objeto de boatos e interpretações midiáticas. Mais tarde, seu envolvimento afetivo com Franca — figura que acompanhou parte de sua vida e foi tema de comentários da imprensa — compõe outro capítulo do que poderíamos chamar de “o roteiro oculto” de sua existência: o entrelaçar do artístico com o privado, onde a curiosidade social reescreve e reencena a vida do artista.
Como analista cultural, vejo em Totò não apenas um comediante magistral, mas um eco cultural que reflete as tensões da Itália do seu tempo: a busca por reconhecimento, o peso das hierarquias sociais, a ambivalência entre escárnio e empatia. Sua biografia — nascida de uma relação clandestina, forjada nas ruas de Nápoles, narrada nos palcos e nas telas — funciona como um espelho do nosso tempo, um filme em que os protagonistas são as contradições da modernidade.
Celebrar o nascimento de Totò é, portanto, revisitar a história cultural da Itália: é reexaminar como o riso pode ser instrumento de crítica e cura, como a origem modesta pode se transformar em potência criativa e como as histórias pessoais viram mitos coletivos. Entre o silêncio forçado de uma paternidade não reconhecida e os aplausos nos grandes palcos, Totò construiu um legado que segue nos ensinando a ler a comédia como uma forma superior de verdade.
Chiara Lombardi comenta que, na obra e na vida de Totò, encontramos um roteiro de transformações sociais: um artista que transforma segredo em personagem e que continua a falar, em italiano e além, ao coração das plateias.






















