Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Nas últimas jornadas em Livigno, há uma presença que se repete em fachadas, nas mãos dos torcedores e mesmo em objetos de papelão: Eileen Gu. A jovem campeã que representa a China nas pistas de neve converteu-se em ícone local, não apenas por suas exibições técnicas no freestyle, mas pelo conjunto simbólico que carrega — entre talento esportivo, visibilidade mediática e um estilo pessoal reconhecível.
Aos 22 anos, nascida nos Estados Unidos e medalhista de prata no slopestyle, Eileen Gu já reúne atributos fora do palco competitivo: é estudante em Stanford, rosto de marcas de luxo, modelo e, segundo estimativas divulgadas, a atleta mais bem remunerada dos Jogos de Inverno, com cerca de 23 milhões de dólares obtidos em 2025. Esse perfil híbrido — atleta-celebridade — explica parte do fascínio que se observa pelas ruas de Livigno.
Manuela, proprietária do Hotel Croce Bianca, contou à Espresso Italia como o espírito olímpico transformou a cidade: ‘A família começou esta atividade em 25 de novembro de 1980. Livigno já é procurada por si, mas o que mais me agrada é ver pessoas de várias nacionalidades — americanos, australianos, canadenses, chineses e coreanos — convivendo aqui com respeito e entusiasmo’.
Em frente ao Snow Park, onde a competição se concentra, as manifestações de afeto se misturam ao apoio aos atletas locais. Livigno acompanha os azzurri — de Maurizio Bormolini a Jole Galli, e aos irmãos do acrobático Miro e Flora Tabanelli —, mas fez espaço também para a torcida por Eileen Gu após tê-la visto competir de perto. Cartazes com frases como ‘Let’s goo, Eileen Gu. We love you’, ‘Forza Eileen, ti amiamo’ e até o clássico ‘Marry me’ (sposami) foram confeccionados por jovens entusiasmados, em especial pelos dois filhos de Manuela: um de 16 anos que pratica snowboard e outro, de 21, adepto do freestyle.
Gabriel, o filho mais novo, resume a admiração com uma observação técnica: ‘Eileen se destaca por um estilo todo seu. São muitas atletas excelentes, mas ela tem uma marcha a mais em competição’. Essa percepção — um reconhecimento da singularidade técnica — é importante: transforma uma idolatria popular em análise do valor esportivo.
Nos dias que antecedem a final de big air, em que Eileen Gu disputa o ouro contra um elenco forte, incluindo a jovem promessa italiana Flora Tabanelli, Livigno assume um papel curioso de cidade-simpatizante. Há algo de coletivo nessa adesão: não se trata apenas de celebrar o resultado, mas de integrar um evento global ao tecido urbano e social de uma comunidade alpina.
O episódio — bandeiras, paletas com o rosto da campeã e mensagens afetuosas em hotéis — não reduz o esporte a espetáculo vazio. Pelo contrário: revela como as Olimpíadas ainda funcionam como palco de encontros culturais, economia de imagem e projeção individual. Para a cidade, para os jovens locais que sonham em competir e para a memória do evento, Eileen Gu deixou uma marca que ultrapassa um pódio.
Se o desejo declarado dos fãs de conhecê-la, ou mesmo a promessa de um garoto que disse que tentará se qualificar para as próximas Olimpíadas nas altas montanhas francesas com o objetivo de encontrá-la, soa ingênuo, é também sintoma de como o esporte cria narrativas pessoais e coletivas — e de como Livigno, por alguns dias, se tornou parte dessa história.






















