Por Chiara Lombardi — Em um cenário que lembra a montagem meticulosa de um filme épico, as Olimpíadas de Inverno de Milano‑Cortina 2026 desenham um roteiro onde a televisão em sinal aberto reaparece como protagonista — e as redes sociais atuam como o coro contemporâneo que amplifica cada cena memorável.
Uma análise assinada por Sensemakers em parceria com CeRTA e o Annuario della TV, com elaboração sobre dados Auditel (em colaboração com Massimo Scaglioni), confirma que o grande evento esportivo foi, antes de tudo, um triunfo da TV em aberto. A Cerimônia de abertura registrou média de 9.368.000 espectadores na Rai2, um número notável mesmo diante das críticas à transmissão.
Os valores dos picos de audiência sintetizam bem o fenômeno: o esqui alpino, com as performances de Federica Brignone e Goggia, alcançou média de 4.300.000 espectadores na tarde de domingo, 8 de fevereiro. O curling, na mesma noite, atraiu cerca de 3.400.000 pessoas. Ainda naquele dia, mais de três milhões acompanharam apresentações de patinação artística, patinação no gelo e bobsled/slitte.
O dado agregado revela uma mecânica cultural: durante a semana olímpica, a audiência em prime time subiu 2,5%, indicando que grandes eventos coletivos ainda elevam o apelo da transmissão presencial, do ritual compartilhado do pós-jantar diante da tela. Paralelamente, o chamado “escutamento não reconhecido” do streaming — as audiências fora do medidor tradicional — caiu 5,8% em comparação à mesma semana do ano anterior.
É importante destacar que as plataformas de streaming não são facilmente desagregáveis pelos instrumentos de mensuração atuais. Se imaginarmos um crescimento dos canais como a Eurosport, é razoável supor que as olimpíadas redistribuíram tempo e atenção, em prejuízo de parte da oferta on demand.
Quanto ao consumo por telas menores, o chamado small screen (smartphones e afins) contribuiu em torno de 5% para os eventos de maior audiência — por exemplo, a combinada alpina de segunda, 9 de fevereiro —, mas esse peso sobe para 15% entre os espectadores de 15 a 24 anos. Em outras palavras, para os mais jovens a TV é tascável e onipresente: a televisão, hoje, cabe no bolso.
Entretanto, o capítulo que melhor ilustra a dupla dinâmica da era digital é o das redes sociais. Momentos icônicos — como a medalha de ouro de Francesca Lollobrigida — geraram vídeos que atingiram 4 milhões de visualizações apenas nas plataformas. Até agora, foram contabilizados 264.000.000 de visualizações de vídeos das Olimpíadas distribuídos por Facebook, X, YouTube e TikTok.
O quadro traçado por esses números aponta para uma transformação: o consumo de vídeo ultrapassou claramente os limites da TV tradicional. Cabe aos editores e operadores culturais capitalizar esse eco cultural, transformando visibilidade em retenção e engajamento, e não apenas em picos instantâneos.
Em suma, Milano‑Cortina 2026 funcionou como um espelho do nosso tempo audiovisual: a TV em aberto restaurou a experiência coletiva, o streaming disputou espaço mas sem dominar, e as redes sociais amplificaram os momentos‑ícone, reescrevendo o roteiro da memória coletiva.
Em colaboração com Massimo Scaglioni; elaboração sobre dados Auditel.






















