Por Chiara Lombardi — A cena musical italiana receberá no palco de Sanremo uma presença que funciona como um verdadeiro espelho do nosso tempo: a banda Bambole di Pezza. As cinco musicistas chegam ao festival com a canção “Resta con me”, um hino de irmandade que liga o passado punk-rock dos anos 2000 ao presente político e cultural.
Originárias da cena alternativa, com histórias de furgone, centri sociali e um ativismo que remete às riot grrrls americanas, as Bambole di Pezza traduzem numa trajetória coletiva o roteiro oculto de uma geração que se recusou a desaparecer. Depois de dois álbuns e turnês constantes, elas fizeram uma pausa, retornaram em 2022 com nova formação e agora representam, no palco mais visível da canção italiana, a alma rock do festival.
A formação atual reúne as guitarristas fundadoras Morgana e Dani com a nova geração: Cleo na voz, Xina na bateria e Kaj no baixo. É uma continuidade que parece um reframe: raízes antigas, novo impulso. Em entrevista, as integrantes explicam que “Resta con me” é antes de tudo uma história de solidariedade feminina — uma ode àquelas que ficam juntas nos momentos de dificuldade — e também um comentário sobre os tempos de ódio que atravessam o mundo, das guerras às microviolências do cotidiano.
“É o relato da nossa experiência pessoal, mas fala também de guerra e do julgamento público”, diz Morgana. Dani acrescenta: “É um apelo à humanidade, ao não sermos ilhas”. A canção, que assume um formato de ballad em contraste com o passado punk, prova que a fidelidade estética não é prisão: o fazer artístico pode diálogar com outras linguagens sem trair suas origens.
O debate sobre representatividade também marca a fala do grupo. Enquanto, na Top 100 do mercado britânico as mulheres ocuparam importantes posições, a presença feminina nas listas italianas segue minoritária — um sintoma do que as integrantes chamam de substrato cultural patriarcal persistente. “Cansa ouvir ‘você é boa por ser mulher’”, afirma Kaj. O grupo declara sem rodeios: somos feministas. Para elas, o termo não é rancor contra os homens, mas uma reivindicação de igualdade de direitos e de reconhecimento profissional e cultural.
Do ativismo de rua ao reconhecimento institucional: a história das Bambole di Pezza tem capítulos surpreendentes. O encontro com o Presidente Mattarella no Quirinale foi lembrado com orgulho pela banda, que cita a música “Senza permesso” como um pequeno refrão profético — “nessuno ci credeva, chi lo avrebbe mai detto”. Há também um resgate pessoal: Cleo recorda a avó Maria, que teve de escolher entre casar ou cantar; ao levar a voz da família ao palco de Sanremo, Cleo entende seu gesto como restituição simbólica.
A proposta sonora da banda provoca reflexões maiores sobre o ecossistema musical: o domínio da trap e de narrativas que por vezes lucram com a misoginia é questionado pelo quinteto. No diálogo com a tradição pop, não faltam surpresas — como o dueto anunciado com Cristina D’Avena — que poderiam, superficialmente, ser lidas como uma traição ao rock. As Bambole di Pezza respondem com elegância: experimentar formatos é parte do jogo; preservar a identidade é o que importa.
Em suma, a participação no festival não é apenas um ato de visibilidade: é um movimento simbólico. A banda leva ao cenário principal uma narrativa que mistura lembrança, resistência e design político da canção — um pequeno manifesto que nos convida a ouvir não só a música, mas o cenário cultural que ela reflete. Se Sanremo é um palco maior, as Bambole di Pezza chegam para lembrar que o rock pode ser espelho e martelo: refletir e transformar.






















