Por Chiara Lombardi — Em um cenário onde o entretenimento funciona como um espelho do nosso tempo, a trajetória de Tecla Insolia ressoa como um pequeno porém contundente roteiro de formação. Com apenas 22 anos, ela já conquistou dois prêmios David e acaba de ser reconhecida pela Berlinale como Shooting Star, distinção que a aponta como artista emergente no circuito internacional.
Tecla costuma repetir duas imagens de si mesma: «sou pequenina» e «sou ansiosa». São mantras que não soam como autodepreciação, mas como afirmações situadas — de quem compreende que a exposição pública exige uma medida íntima de proteção. Ela diz ser esta a sua primeira experiência no exterior e admite a responsabilidade que sente: «os últimos dois anos foram intensos. Os prêmios são importantes quando você decide que valor lhes dar». Essa reflexão minimalista compõe um reframe da realidade sobre fama e dedicação.
Aos olhos do público, a jovem já percorreu caminhos pouco comuns: começou na música, venceu o Sanremo Young e só depois transitou para a atuação. Curiosamente, ela mesma dizia não gostar da própria voz — dito por uma cantora — e encontrou na interpretação uma liberdade distinta: «atuar é um ofício perfeito para uma pessoa introvertida como eu», afirma. Há aí um elemento de semiótica do viral: a voz que se oculta diante da câmera transforma-se em personagem e, assim, em narrativa compartilhada.
O passado profissional de Tecla inclui papéis importantes desde a adolescência. Aos 16 anos, ela interpretou Nada em uma ficção televisiva, estudando os gestos da personagem sem imitá-la. A mãe, lembra ela, contou que Tecla cantava antes de falar — um traço que liga a criança ao performance adulta: «a música está na atuação», escreveu Matilda De Angelis em uma mensagem de apoio. Essa continuidade entre voz e corpo é parte do roteiro oculto de sua singularidade.
Sobre a vida pessoal, Tecla confessa que sua adolescência foi vivida, em grande parte, na solidão. Viagens, trabalho e ausências da escola tornaram difícil a construção de amizades longas: «a professora me chamava Insolita ou Insolente por causa das faltas». Hoje, diz ter poucos amigos, porém bons. Esse isolamento vivido cedo aparece como um eco cultural: o preço da precocidade é a perda de certos ritos coletivos de passagem.
Os laços familiares também trazem sinais de afeto e escolha. Tecla tem dois irmãos mencionados com nomes que reclamam singularidade — Gioele e Santiago —, e conta que foi ela mesma quem escolheu o nome do caçula, inspirado em Santiago de Compostela. E no campo profissional, a atriz teve o privilégio de trabalhar com nomes respeitados do cinema italiano, como Valeria Golino, Jasmine Trinca e Valeria Bruni Tedeschi. Ela descreve essa convivência como um aprendizado: escuta, absorve e se deixa atravessar por experiências alheias.
Ao invés de buscar ser onipresente, Tecla repete que não quer ver seu rosto em toda parte: prefere manter-se «pequenina» e medir as palavras que diz em público. É uma visão que reverbera como um convite à responsabilidade, lembrando que o ator — sobretudo na era das redes — cria empatia e, portanto, consequências.
Como analista do zeitgeist, diria que a história de Tecla Insolia traduz um dos paradoxos contemporâneos: crescimento acelerado e desejo de preservação íntima. A sua nomeação na Berlinale não é apenas um prêmio individual; é também um sinal de que o cinema europeu continua interessado em vozes que façam do silêncio e da interioridade terreno fértil para narrativas profundas. Em tempos de exposição constante, essa jovem atriz-cantora oferece um pequeno, mas potente, espelho crítico do nosso tempo.






















