Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
Quando faltam sete dias para o encerramento de Milano Cortina 2026, a seleção italiana confirmou aquilo que vinha sendo construído com persistência e investimento: ultrapassar o máximo histórico de pódios em uma edição dos Jogos Olímpicos de Inverno. A noite de 15 de fevereiro entrou para a história do esporte nacional — uma “domingo de ouro” que elevou o total de conquistas a 22 medalhas, superando as 20 de Lillehammer 1994.
Os resultados que compõem esse salto não são apenas números: são símbolos de uma mudança de patamar. Entre as performances decisivas destacam-se o segundo ouro conquistado por Federica Brignone no slalom gigante, o histórico ouro de Lisa Vittozzi no biathlon, o bronze da equipe masculina do esqui nórdico impulsionado por Alessandro “Chicco” Pellegrino e a prata obtida pela dupla Michela Moioli e Lorenzo Sommariva no snowboard cross por equipes. Some-se a isso os dois ouros de Francesca Lollobrigida no patinagem de velocidade (3000m e 5000m) e o bronze de Riccardo Lorello, e tem-se um quadro amplo de rendimento e diversidade.
O significado desse recorde, contudo, exige perspectiva histórica. A Itália soma agora 163 pódios em Jogos de inverno ao longo de 24,5 edições (o meio refere‑se à lógica dos primórdios, quando as primeiras quatro edições não registraram medalhas italianas). O pioneiro foi Nino Bibbia, há 78 anos em Sankt Moritz, com o ouro no skeleton — um marco fundacional que aponta como a presença italiana nas neves evoluiu de episódios isolados para uma política esportiva de alcance nacional.
Comparar resultados entre épocas é uma operação que pede cautela. Em Lillehammer 1994 havia 61 provas distribuídas em 12 modalidades; em Milano Cortina 2026 são 116 provas e quatro esportes a mais. Muitos dos pódios italianos recentes vieram em disciplinas que não existiam ou ainda estavam em formação na Noruega de 1994: skeleton, snowboard, bob e luge em maior escala, modalidades mistas e uma expansão do biathlon. Se restringirmos a contagem apenas às provas presentes em Lillehammer, a Itália teria cinco medalhas a menos — isto é, o total atual seria 17, e não 22. A observação não diminui o valor das conquistas, mas ajuda a interpretar a evolução do programa olímpico e o impacto disso sobre as possibilidades de medalha.
Mais importante do que a comparação fria é entender o que mudou na dimensão social e regional do esporte. Até o fim dos anos 1980, a prática de alto nível nos esportes de inverno na Itália era, em larga medida, uma realidade concentrada no Alto Adige e em bolsões alpinos. O domínio pautava‑se no esqui alpino e em modalidades como o slittino. Nas últimas décadas, políticas de formação, investimento em pistas, centros de treinamento e maior inclusão de atletas de outras regiões alteraram o mapa de talentos. O resultado: medalhas que antes eram raras passaram a ser previsíveis e distribuídas entre mais atletas e modalidades.
As trajetórias individuais narram esse processo. Federica Brignone, cuja carreira já dialogava com a história do esqui italiano, transformou potencial em consistência; Lisa Vittozzi inscreveu seu nome na tradição do biathlon com uma vitória que carrega peso simbólico; Francesca Lollobrigida consolidou um investimento no patinagem de velocidade que já vinha dando sinais em campeonatos europeus e mundiais; jovens como Riccardo Lorello e a equipe masculina do nórdico demonstram que renovação e experiência podem coexistir.
Houve também episódios que apontam para a ampliação de oportunidades: medalhas em provas mistas ou em equipe, que hoje fazem parte do calendário olímpico, reforçam o caráter coletivo e estratégico do esporte contemporâneo — um afastamento da narrativa do astro solitário em favor de arranjos técnicos e institucionais mais complexos.
Do ponto de vista cultural, este recorde italiano em casa tem efeitos que extrapolam o palco esportivo. Estádios de gelo e pistas de esqui são agora patrimônios de memória coletiva que reverberam em turismo, infraestrutura e imagética regional. Atletas deixam de ser apenas heróis temporários para virarem referências duradouras em projetos de base e identidade local.
Resta, claro, a última semana de competições, com muitas provas por vir e a possibilidade de ampliar ainda mais esse marcador histórico. Independentemente do número final, a progressão até 22 medalhas é um sinal claro: a Itália de inverno não é mais um arquipélago de exceções, mas um sistema competitivo mais amplo, capaz de transformar tradição em política esportiva e presença internacional.
Em termos práticos, a mensagem é dupla: há mérito técnico individual e há uma transformação institucional. Para leitores que acompanham esporte como espelho de sociedade, o que se vê em Milano Cortina 2026 é a confirmação de um ciclo em que investimento, profissionalização e descentralização geraram resultados concretos — e que estes, por sua vez, alimentam novas expectativas para as próximas gerações.
Feito isso, cabe celebrar sem mitificar: as 22 medalhas são um marco legítimo, fruto de trajetórias e decisões. Mas também são um convite — para políticas sustentáveis de formação, para manutenção de estruturas e para a atenção contínua à equidade regional — se a intenção for transformar esta conquista em legado.






















