Por Marco Severini, Espresso Italia — Em um movimento que redesenha, em silêncio, os contornos da diplomacia contemporânea, o Reino Unido e aliados declararam que o líder da oposição russa, Alexei Navalny, morreu na cadeia após ser envenenado com uma neurotoxina mortal encontrada em rãs-dardo do Equador: a epibatidina.
Segundo as informações hoje tornadas públicas, a substância — descrita como cerca de 200 vezes mais potente que a morfina — foi classificada pelas autoridades que investigam como uma arma química. A conclusão dos Estados aliados, conforme divulgado pela imprensa britânica, é que um ato dessa natureza e desse grau de precisão só poderia ter sido executado por agentes com acesso e controle estatais, levando o dedo da acusação ao Governo de Vladimir Putin.
O episódio remete a um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico: Navalny, detido em uma colônia penal na Sibéria, morreu quase exatamente dois anos atrás, e permanece sem clareza — publicamente — o método exato pelo qual a toxina teria sido administrada. A identificação da epibatidina como agente letal marca, porém, uma virada técnica no quadro probatório apresentado pelos países aliados.
A viúva, Yulia Navalnaya, comentou durante a Conferência de Segurança de Munique que a morte do marido é hoje “um fato cientificamente comprovado”. Nas suas palavras, a convicção que antes fora uma acusação moral contra o Presidente russo tornou-se agora um achado sustentado por análises forenses que vários governos consideram confiáveis.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou via X que “cinco nações europeias estabeleceram que a Rússia envenenou Alexei Navalny”, qualificando o ato como covarde e características de um Estado que recorre ao terror como método de política interna e externa.
Do lado russo, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Maria Zakharova, classificou as alegações como “uma farsa de propaganda ocidental” ao serviço de narrativas que desviariam a atenção dos problemas do Ocidente. Zakharova pediu a divulgação das fórmulas e dos resultados dos testes, afirmando que nada deve ser considerado definitivo até a apresentação pública dos dados técnicos.
Em termos estratégicos, a acusação formalizada por aliados europeus e pelo Reino Unido não é apenas uma denúncia criminal: é também um movimento de pressão diplomática que busca isolar Moscou e firmar um eixo de responsabilização internacional. A leitura analítica aponta para um redesenho de fronteiras invisíveis — não territoriais, mas de responsabilidade normativa — entre Estados que toleram o uso de agentes neurotóxicos e aqueles que exigem prestação de contas.
Resta, no entanto, a lacuna operacional: como foi administrada a toxina dentro de uma instalação penal de alta segurança? A resposta a essa pergunta será determinante para transformar as alegações em provas irrefutáveis perante tribunais internacionais e em instrumentos de sanção política. Até lá, assistimos à construção cuidadosa de um caso que poderá alterar, peça por peça, os alicerces frágeis da diplomacia entre Ocidente e Rússia.
Enquanto a disputa sobre a interpretação dos laudos prossegue, a memória de Navalny permanece no centro de uma disputa simbólica e jurídico-política que toca a própria natureza do poder: silenciar dissidentes internamente e enfrentar as consequências desse gesto no palco da ordem internacional.






















