Em visita pastoral à paróquia de Santa Maria Regina Pacis, no ponto mais alto de Ostia, o Papa Leone XIV realizou a primeira das cinco etapas do seu trajeto pelas comunidades da diocese de Roma antes da Páscoa. A escolha do território não foi apenas litúrgica: Ostia guarda laços históricos com São Agostinho e sua mãe, Santa Mônica, e enfrenta, nas suas ruas, desafios sociais que marcam a vida cotidiana.
Com o tom de quem lê a geografia humana como um tabuleiro que exige jogadas prudentes, o Pontífice lançou um apelo ao respeito e à harmonia, convidando a sociedade a “desarmar os linguagens” para conter uma violência que «existe e fere». Em sua homilia, advertiu contra a resignação diante da «cultura do sopruso e da injustiça» e pediu que se invistam «energias e recursos» na educação dos jovens como antídoto contra a supremacia do mais forte, propondo «a força desarmante da mansidão» como remédio à hostilidade.
A chegada do Papa Leone XIV ao litoral romano ocorreu no início da tarde, sob uma recepção festiva: faixas, balões e a presença calorosa de crianças do catecismo, do oratório, do Rinnovamento nello Spirito, do Cammino Neocatecumenale e dos Scout Europa, que lhe ofereceram o tradicional lenço. «A esperança sois vós», disse ao microfone, realçando que «no vosso coração, na vossa juventude, há esperança para hoje e para amanhã». O tom era de confiança serena, típico de quem procura consolidar alicerces frágeis da convivência social.
Prosseguindo a visita na pequena pracinha e na quadra anexa, o Pontífice encontrou idosos e pessoas com deficiência: saudou-os com palavras improvisadas ao microfone, valorizando cada gesto de acolhimento — «entrei e muitos de vós disseram: ‘Bem-vindo!’; sinto-me verdadeiramente bem-vindo entre vós». Assinou uma bola de basquete e uma camisa do clube local, as Stelle Marine de Ostia, gesto simbólico que sublinhou a dimensão comunitária do esporte como espaço de integração.
Ao evocar as próximas Olimpíadas de Milano-Cortina, o Papa convidou a deixar de lado as diferenças e a agir «em equipa», lembrando que grandes eventos exigem coordenação e espírito coletivo — analogia pertinente numa tessitura internacional e local onde a cooperação é a jogada estratégica.
A missa contou com a presença de cerca de 400 fiéis, selecionados por sorteio, segundo explicou o pároco Don Giovanni, a fim de evitar preferências. Na homilia, Leone não se esquivou de denunciar a dureza do território: observou que a violência assume formas diversas — entre jovens e adolescentes, com frequência associada ao uso de substâncias, ou promovida por organizações criminosas que exploram e corrompem, perseguindo interesses ilegítimos por meios imorais.
Frente a estes fenómenos, o Papa convocou a comunidade paroquial e outras realidades virtuosas a continuar a agir «com generosidade e coragem», sem se resignar ao domínio do abuso. Em seu discurso, ressoou a proposta de semear respeito e harmonia como estratégia de longo prazo — uma jogada paciente, de construção de estruturas civis e morais que resistam à erosão causada pelo crime e pela desigualdade.
Quem acompanha a tectônica de poder nas periferias urbanas sabe que intervenções simbólicas, como a presença do Pontífice no coração de Ostia, têm efeito além do rito: desenham novas fronteiras de influência social, encorajam atores locais e apontam para políticas públicas que privilegiem educação, inclusão e prevenção. Foi essa mensagem, de firmeza serena, que o Papa Leone XIV trouxe na tarde de hoje.





















