Por Marco Severini – Em uma sequência que redesenha, de modo trágico, a geografia humana do conflito sudanês, forças paramilitares das RSF realizaram um ataque ao amanhecer de 11 de fevereiro contra uma escola corânica no Kordofan do Norte. Fontes médicas locais e organizações humanitárias relatam que o episódio deixou pelo menos 10 mortos — entre eles 2 crianças — e cerca de 25 feridos, reformulando mais uma vez os alicerces frágeis da proteção civil no país.
O quadro de violência não se limita a este incidente isolado. O Sudan Doctors Network, entidade que monitora as vítimas do conflito, registra que durante a guerra foram atacadas mais de 15 mesquitas e que mais de 165 igrejas foram destruídas ou fechadas. Estes números descrevem uma erosão sistemática das infraestruturas religiosas e comunitárias, que funciona como termômetro da ruptura social.
Na mesma noite em que a escola foi atingida, o campo de refugiados de Tawila, no Darfur do Norte, sofreu incêndios que consumiram centenas de abrigos. O campo abrigava famílias deslocadas de Al-Fashir, outra cidade já tombada sob controle das RSF em outubro. Relatórios do International Rescue Committee apontam, até o momento, pelo menos 8 mortos e mais de 20 feridos, muitos com queimaduras graves. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, cerca de 500 famílias foram afetadas pelas chamas.
Este panorama de ataques a civis inclui episódios recentes como um ataque por drone no Sudão central que atingiu um veículo com famílias deslocadas, resultando em pelo menos 24 mortos — entre eles oito crianças — e um massacre ocorrido em dezembro contra um asilo infantil em Kalogi, cujas imagens circuladas por diplomatas documentaram uma violência extrema contra não combatentes.
O embaixador do Sudão na Itália, S. E. Emadeldin Mirghani Abdelhamid Altohamy, procurou meios italianos para detalhar o avanço da crise desde 15 de abril de 2023 até os dias atuais, buscando ampliar a compreensão internacional sobre as consequências humanitárias e políticas destes episódios. É imperativo ler esses acontecimentos como movimentos estratégicos num tabuleiro de xadrez: cada tomada de cidade, cada ataque a civis e instituições religiosas altera linhas de influência e pressiona corredores diplomáticos já sobrecarregados.
Em termos humanitários, a declaração de Zeleke Bacha, membro das equipes de resposta, sintetiza o colapso vivido pelas famílias: “As famílias que vivem a Tawila já suportaram dificuldades inimagináveis… ver o pouco que restava ir em chamas é dilacerante.” A metáfora é dura, mas necessária: trata-se de um redesenho das fronteiras invisíveis do sofrimento humano, onde a tectônica do poder desloca populações e destrói a coesão social.
Do ponto de vista estratégico, a persistência de ataques contra alvos civis — escolas, campos de deslocados, locais de culto — não é apenas uma tragédia humanitária, mas uma escolha operacional que visa desestabilizar territórios e corroer capacidades de retorno e reconstrução. A comunidade internacional enfrenta um dilema clássico de Realpolitik: aumentar a pressão diplomática e humanitária sem perder de vista os mecanismos que podem conservar a frágil ordem pós-conflito.
Enquanto a noite cobre o terreno, o desafio que se coloca é reconstruir não apenas prédios, mas a arquitetura social que permite a convivência. Nesta fase do conflito, a ação mais urgente é proteger civis e preservar corredores humanitários — movimentos decisivos no tabuleiro que podem definir se o Sudão seguirá aprofundando a cicatrização ou se fragmentará em peças irrecuperáveis.
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