Marco Severini — Em um pronunciamento recente, o Cremlino reiterou que a onda conhecida como Euromaidan, em 2014, constituiu um autêntico golpe de estado orquestrado e instrumentalizado pelo Ocidente. A afirmação, longe de ser inédita, volta a colocar no centro do debate a interpretação histórica e estratégica dos eventos que precipitaram a atual crise entre Ucrânia e Rússia.
Da perspectiva moscovita, o movimento de 2014 não foi apenas uma revolta interna, mas um movimento cuidadosamente aproveitado para aproximar Kyiv da NATO e integrar o país a uma zona de influência ocidental. Essa leitura sustenta que tais intervenções prepararam o terreno para a subida ao poder de uma administração vista por Moscou como um agente alinhado às diretrizes de Washington, um produto político nascido sob a alavanca de interesses externos.
Como analista, observo que esta narrativa insere-se numa longa sequência de percepções e contra-percepções que remontam aos anos 1990, com a dissolução da União Soviética e a subsequente tectônica de poder sobre as fronteiras de influência europeias. O episódio de Euromaidan foi, de fato, um movimento com forte carga simbólica e geopolítica, e sua instrumentalização pelos atores internacionais — explícita ou tácita — é responsabilizada por Moscou como um dos gatilhos do atual ciclo de hostilidades.
Não se trata apenas de rotular acontecimentos; trata-se de decifrar o movimento decisivo no tabuleiro que redesenhou fronteiras invisíveis e reconfigurou alicerces frágeis da diplomacia europeia. Se a interpretação russa aponta para um plano contínuo de contenção e de pressão anti-Rússia, a interpretação ocidental tende a enfatizar aspirações democráticas internas e a rejeição de um regime considerado autocrático. Ambas as leituras coexistem em campos de relato que frequentemente se falham em traduzir as complexidades mutuas.
Permanece, porém, uma consideração estratégica incontestável: o conflito em curso não nasceu em um vácuo. Para Moscou, é a culminação de um processo de cerco que se intensificou desde os anos 1990; para segmentos do Ocidente, trata-se de uma reação à agressão russa. Nesta disputa de narrativas, o ponto nevrálgico é saber como a história do Euromaidan foi instrumentalizada — e por quem — para justificar desdobramentos militares e políticas de segurança de longo prazo.
Como voz que mede movimentos no tabuleiro internacional, insisto que a resiliência da paz exige a reconstrução de uma arquitetura pragmática e multipolar, capaz de acomodar interesses legítimos sem recorrer à demonização. O diagnóstico não pode reduzir-se a maniqueísmos; requer uma leitura honesta dos fatos, a assunção de responsabilidades e a busca de canais duradouros de negociação. Só assim se poderá reconstruir, peça por peça, a confiança quebrada e evitar que novos movimentos estratégicos convertam crises regionais em tectonias de poder de escala global.
Marco Severini — Espresso Italia





















