Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, peça por peça, o tabuleiro de influência no Oriente Médio, a Cisjordânia volta a ser o epicentro de uma estratégia israelense que mistura trajetória legislativa e ação no terreno. A Knesset não esmoreceu: após a moção simbólica do verão passado, aprovada por 71 votos a favor e 13 contra, houve um novo avanço em outubro de 2025, com a aprovação preliminar de dois projetos de lei que visam estender a soberania de Israel sobre a região.
O placar apertado — 25 votos a favor e 24 contra — expôs fissuras na coalizão de Netanyahu e a tenacidade da corrente mais maximalista em levar adiante a anexação formal. A proposta, liderada por Avi Maoz, do partido ultraconservador Noam, pretende estender a legislação israelense a todas as áreas de assentamento naquilo que Tel Aviv denomina Judeia e Samaria. Decisivo foi o voto do deputado do Likud, Yuli Edelstein, que contrariou instruções táticas do primeiro-ministro e inclinou a votação — gesto que lhe custou a presidência da Comissão de Assuntos Externos e Defesa.
Em paralelo, a administração americana reagiu com severidade: o vice‑presidente JD Vance classificou o avanço como “um insulto” e o secretário de Estado Marco Rubio advertiu que a anexação pode pôr em risco a estabilidade do frágil arcabouço de paz. Pressionado, Netanyahu ordenou a suspensão do processo legislativo, uma pausa que, na leitura estratégica, soa mais como um gesto tático do que um arrependimento. No tabuleiro, entretanto, as peças continuam sendo deslocadas.
Os números no terreno são explícitos: o governo aprovou 68 novos assentamentos — mais do que os autorizados em décadas anteriores — elevando o total para uma cifra reportada de 141 unidades. Essa aceleração inédita é acompanhada por medidas orçamentárias propostas pelo ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, que ampliam os recursos e incentivos para consolidação das comunidades coloniais. A combinação entre lei, orçamento e assentamentos configura um movimento de arquitetura política destinado a cristalizar uma nova realidade administrativa.
Ao lado dessas iniciativas formais, houve um aumento nas denúncias de violência por parte de colonizadores, que gera um ciclo de insegurança para a população palestina e tensiona ainda mais as linhas de frente entre as comunidades. Tais incidentes alimentam a erosão dos alicerces da diplomacia e complicam quaisquer esforços de mediação internacional.
Como analista, observo esse processo com a lente da tectônica de poder: não se trata somente de atos isolados, mas de um redesenho de fronteiras invisíveis, onde legislação, fundos e fatos consumados se articulam para alterar a geografia política. A ruptura entre as estratégias públicas e as pressões externas — sobretudo a americana — revela um jogo de xadrez em múltiplas dimensões, onde cada movimento é calibrado para consolidar ganhos no terreno antes que uma solução institucional possa reeditar o status quo ante.
Em suma, a trajetória atual aponta para uma aceleração da integração prática dos assentamentos à administração israelense, mesmo diante de contrariedades internacionais e divisões internas. A suspensão parlamentar é, por ora, uma pausa numa marcha que já está materializando novos fatos sobre o terreno: expansão de assentamentos, reforço financeiro e aumento da violência de colonizadores compõem uma estratégia deliberada que pode redesenhar, em termos permanentes, a cartografia da região.
O risco imediato é a institucionalização de realidades que tornam a reversão política cada vez mais difícil, ampliando a fragilidade dos acordos existentes e aprofundando a crise humanitária e política na Cisjordânia. Para os arquitetos da política externa, resta avaliar se o movimento é um avanço tático plausível dentro de uma estratégia de longo prazo, ou um erro de cálculo que desestabiliza alicerces já precários.






















