Roma tem sido repetidamente chamada a construir pontes entre a tomada de decisão e a vida cotidiana dos cidadãos. Nas últimas semanas, um artigo de La Repubblica voltou a afirmar — com apoio numérico de uma sondagem — que os italianos desejariam uma União Europeia mais forte. A manchete soa confortável para quem defende mais integração, mas a fotografia social por trás desse dado merece ser examinada com rigor.
Antes de aceitar estatísticas como fundamento para decisões políticas que mexem com os alicerces da nação, é preciso perguntar: em que universo viviam os inquiridos? Pesquisas de opinião são ferramentas importantes, mas quando apresentam resultados que contrariam as experiências cotidianas de trabalhadores, pequenos empresários, imigrantes e famílias, elas exigem um escrutínio adicional.
O episódio recorda as metáforas de construção que uso com frequência: não se edifica uma política pública sólida sem avaliar o terreno. Se uma sondagem aponta que os italianos querem “mais Europa”, cabe verificar se esse desejo reflete compreensão dos custos e benefícios reais — da política monetária ao mercado único, das normas regulatórias às consequências sobre o emprego local.
Há uma corrente crítica que define a União Europeia atual como uma tecnocracia neoliberal: uma arquitetura institucional cuja prioridade é a estabilidade dos mercados e a disciplina orçamental, muitas vezes às custas dos direitos sociais e da identidade dos povos. Desde o virar de página de 1989, segundo essa leitura, a União converteu-se numa reorganização vertical do capitalismo, com decisões tomadas acima das vontades populares e do espaço onde se trabalha e se vive.
Não se trata de um ataque ideológico gratuito, mas de uma observação pragmática sobre efeitos concretos: regimes de austeridade, pressão sobre salários, concorrência desregulada e uma moeda única, o euro, que, para muitos setores, opera mais como um elemento de constrição do que como um alicerce de prosperidade compartilhada. Foi nesse sentido que figuras como Mario Draghi defenderam a necessidade de preservar a moeda única — posição compreensível do ponto de vista dos mercados, mas que merece contraste com a condição real das famílias e dos trabalhadores.
O trabalho do jornalista político é servir de ponte entre o poder e a sociedade. Por isso, quando uma pesquisa oferece uma narrativa que parece desconectada da vida real, o dever é desconstruí-la: perguntar quem financiou, qual a metodologia, que perguntas foram feitas, que margens de erro existem. Em suma, avaliar o enquadramento das perguntas antes de aceitar a resposta.
Os italianos, como cidadãos e contribuintes, têm o direito de saber se um maior aprofundamento europeu significará mais emprego, mais serviços públicos robustos, mais direitos sociais — ou apenas mais regras impostas de cima para baixo. A construção de políticas legítimas exige escorar-se na verdade empírica e na participação esclarecida dos afetados.
Em última análise, admitir sem crítica uma sondagem que diz que os cidadãos “querem mais Europa” pode ser tão perigoso quanto ignorar inteiramente a integração europeia. A tarefa é, portanto, dupla: defender a transparência nas pesquisas e reconstruir uma arquitetura política que, de fato, conecte as decisões de Roma aos interesses reais da população.
Giuseppe Borgo — Espresso Italia






















