Nicola Gratteri, procurador da República em Nápoles, acendeu uma nova tensão no debate sobre o referendo sobre a justiça de 2026 ao afirmar, em entrevista, que votarão a favor do Sì aqueles que têm interesses a perder com uma magistratura mais eficaz. Segundo o procurador, “voteranno per il ‘Sì’ gli indagati, gli imputati, la massoneria deviata e i centri di potere che non avrebbero vita facile con una giustizia efficiente”. Por contraste, teria dito que para o No votarão “le persone perbene” — as pessoas de bem que acreditam na legalidade como motor de mudança.
A declaração provocou reação imediata dos partidos. Líderes de Fratelli d’Italia classificaram as palavras como “indegnas” e exigiram retratação. Galeazzo Bignami, chefe da bancada do partido na Câmara, definiu como “gravíssimas” as acusações de Gratteri e pediu que as instituições, a magistratura e as forças políticas repudiassem o que chamou de tentativa de criminalização de quem pensa diferente.
Também o senador Salvo Sallemi, membro da comissão Justiça, pediu publicamente que o procurador peça desculpas: “Definir eleitores do Sì como ‘imputados’ ou ‘indagati’, ou associá-los a uma ‘massoneria deviata’, é profundamente ofensivo. A dialética política pode ser áspera, mas não deve descambar para insultos desse tipo”.
O episódio chega num momento em que as pesquisas mostram cenário apertado. A YouTrend, citada por diversos meios, aponta duas hipóteses: com baixa afluência (46,5%) o No lideraria por 51,1% contra 48,9% do Sì; já em cenário de alta participação (58,5%), prevaleceria o Sì com 52,6% frente a 47,4% do No. Esses números realçam que cada palavra pública tem potencial de influenciar os eleitores e a confiança na arquitetura do processo democrático.
No tabuleiro político também houve outras controvérsias: o Partido Democrático (PD) publicou um vídeo com atletas do curling para estimular o voto pelo No, mas o material foi removido após reclamações do CONI e do porta-bandeira Mosaner, ampliando a sensação de que a campanha está permeada por incidentes e reações em cadeia.
Como repórter que acompanha a intersecção entre decisões de Roma e a vida cotidiana dos cidadãos, observo dois vetores relevantes neste episódio. Primeiro, o peso da palavra pública quando pronunciada por quem ocupa cargos institucionais: a força de uma afirmação de um procurador pode reforçar ou corroer a confiança nos alicerces da lei. Segundo, a necessidade de manter uma ponte entre a magistratura e a sociedade — a construção de direitos não se beneficia de generalizações que deslegitimam o contraditório.
De um lado, há quem defenda que Gratteri advertia sobre interesses que temem uma justiça mais rápida e independente; do outro, há quem veja nas suas palavras um recuo perigoso para o equilíbrio institucional. Entre essas posições, o eleitorado italiano — inclusive muitos ítalo-descendentes e imigrantes atentos ao funcionamento da justiça — precisa de informações claras, factuais e sem retórica incendiária.
Em resumo: o episódio Gratteri-FdI não é só um choque verbal; é um alerta sobre como se erguem e se abalam os alicerces da confiança pública. A discussão deve voltar-se ao conteúdo das reformas, ao respeito pelas instituições e à responsabilidade de quem tem a caneta para pesar palavras com prudência.






















