Por Marco Severini — Na esteira do anúncio de que Moscou substituiu seu negociador e a poucos dias do terceiro ciclo de diálogos previsto para a próxima terça-feira em Genebra, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky subiu ao púlpito da Conferência de Segurança de Munique com um alerta de tom grave: excluir a Europa da mesa de negociações seria «um erro sério».
Em palavras medidas, mas carregadas de implicações estratégicas, Zelensky afirmou que a voz europeia «deve ser considerada» porque, na sua leitura, o Velho Continente encontra-se hoje sub-representado nas conversas que definirão o futuro da Ucrânia. O líder ucraniano deixou transparecer uma frustração contida em direção aos Estados Unidos, acusando-os, nas formulações mais incisivas já ouvidas em público, de discutir concessões principalmente em relação à Ucrânia e não à Rússia.
O quadro das garantias de segurança permanece, nas palavras de Zelensky, pouco claro — ainda que autoridades ocidentais indiquem que essas propostas estariam praticamente finalizadas em larga medida. Depois de um encontro bilateral com o senador americano Marco Rubio, o presidente elogiou o «abordagem construtiva» de Washington e manifestou a esperança de que os diálogos na Suíça sejam «sérios e substanciais», ao mesmo tempo que admitiu sentir certa «pressão» vinda do ex-presidente Trump.
Sobre o pedido para convocar eleições, Zelensky manifestou-se disposto a realizá-las, desde que sejam garantidos «dois meses de trégua» — condição que traduz tanto uma exigência de segurança operacional quanto uma necessidade política para permitir a condução de um pleito minimamente legítimo.
O apelo para envolver o continente europeu foi imediatamente ecoado por figuras centrais da diplomacia do Leste. O ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radoslaw Sikorski, recordou numa mesa-redonda que, quando o conflito eclodiu, o papel norte-americano foi decisivo e justificava uma liderança maior dos EUA; hoje, porém, segundo ele, a equação mudou.
«Talvez isso não chegue à infosfera americana, mas a contribuição deles está hoje próxima de zero, enquanto nós compramos armamentos americanos para doar à Ucrânia», disse Sikorski. Ele sublinhou que, se a Europa arca com os custos de segurança e defesa do continente e do Estado ucraniano, então merece um lugar à mesa das decisões. «A posta em jogo é alta: não se trata apenas do futuro da Ucrânia, mas do lugar da Europa na futura distribuição do poder mundial», advertiu o chanceler polonês, evocando a pergunta estratégica que paira sobre o tabuleiro global: quem será a terceira perna depois dos Estados Unidos e da China — a Rússia ou a União Europeia?
Do ponto de vista geopolítico, a tentativa de excluir a Europa do processo de negociação é um «movimento de alto risco» num tabuleiro já fragmentado por eixos de influência. A leitura diplomática que privilegio é que uma negociação conduzida sem a participação europeia correria o risco de redesenhar fronteiras de influência de modo invisível, enfraquecendo alicerces que sustentam a ordem transatlântica. Em termos práticos, isso reduziria a legitimidade das decisões e ampliaria a sensação de descompasso entre interesses locais e decisões globais.
Em suma, a conferência em Munique e as conversas em Genebra materializam um momento decisivo: ou a arquitetura da paz incluirá a Europa como ator central — reconhecendo sua exposição material e política — ou a ausência europeia nos acordos servirá de catalisador para uma tectônica de poder menos favorável ao equilíbrio ocidental. No final das contas, trata-se de escolher quem joga as próximas jogadas num tabuleiro em que cada movimento tem efeitos de longo prazo.






















