Por Marco Severini – Espresso Italia. Cinco Estados europeus — Reino Unido, França, Alemanha, Suécia e Países Baixos — concluíram, após análises laboratoriais apresentadas na Conferência de Segurança de Munique, que o opositor russo Alexei Navalny foi vítima de um envenenamento por uma substância rara extraída de uma rã-dardo sul-americana. Os peritos identificaram epibatidina em amostras retiradas do corpo do dissidente, que faleceu em 16 de fevereiro de 2024 enquanto cumpria uma pena de 19 anos numa colônia penal no Ártico.
Segundo a declaração conjunta, a detecção da epibatidina — um potente neurotóxico presente na epiderme dessas rãs e que não ocorre naturalmente em solo russo — torna altamente provável que se trate de um veneno introduzido de fora do sistema ecológico local. Diante disso, os governos envolvidos apontam o Estado russo como o principal responsável, argumentando que Moscou teria tido “meios, motivo e oportunidade” para administrar a substância durante o período em que o dissidente estava sob custódia estatal.
Em Munique, a presença de Yulia Navalnaya, viúva de Navalny, sublinhou a dimensão pessoal e política da revelação: ela classificou as evidências como cientificamente demonstradas e lembrou ter acusado Vladimir Putin já há dois anos, quando ainda cabiam apenas suspeitas públicas. Do ponto de vista diplomático, líderes europeus adotaram uma retórica firme: a secretária de Estado britânica, Yvette Cooper, qualificou o plano como “barbaro” para silenciar a dissidência; Jean-Noël Barrot, da França, afirmou que o presidente russo não hesitaria em empregar armas biológicas contra seus próprios cidadãos para permanecer no poder; e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou o episódio um ato de covardia condizente com métodos de um “Estado terrorista”.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, também acusou Putin da responsabilidade — ainda que tenha admitido desconhecer a substância específica — e reafirmou a recusa em viver sob a ameaça de envenenamento político. Em contrapartida, Moscou rejeitou categoricamente as alegações. O Kremlin limitou-se a dizer que Navalny teria passado mal durante uma caminhada no campo prisional; a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Maria Zakharova, rotulou a hipótese do “veneno de rã” como uma fábula propagandística e exigiu a publicação completa dos resultados analíticos para que as acusações pudessem ser consideradas fundamentadas.
Os cinco países informaram também a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), manifestando preocupação sobre a eventual manutenção, por parte da Rússia, de capacidades químicas não integralmente desarmadas. O caso reacende memórias de uma tentativa anterior de envenenamento contra Navalny em 2020, que o opositor sobreviveu, e agora opera como um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico: a revelação científica desloca o jogo da esfera das acusações políticas para a arena técnica e forense.
Enquanto as peças se realinham entre ocidente e Moscou, a constatação da presença de epibatidina empurra a tectônica de poder para um conflito de narrativas e provas. A exigência por transparência dos dados laboratoriais reflete não apenas uma disputa sobre responsabilidade, mas também a fragilidade dos alicerces da diplomacia moderna quando confrontada com técnicas de assassinato improváveis e de difícil rastreabilidade.
Este episódio terá repercussões duradouras nas relações europeias com a Rússia: além das respostas políticas imediatas, abrirá um longo capítulo de exigência por controle e investigação internacional sobre o uso de toxinas exóticas em crimes de Estado — um redesenho de fronteiras invisíveis na regulação das práticas coercitivas contemporâneas.





















