Marco Rubio apresentou um gesto conciliatório no seu discurso mais recente, buscando reconstruir pontes com os aliados ocidentais após um período de tensões inéditas. A primeira reação oficial da União Europeia foi de alívio: a responsável por política externa citada pela imprensa saudou o sinal como um “suspiro de alívio” e a presidente da Comissão Europeia acolheu o convite para construir um “novo século ocidental”.
No entanto, o otimismo inicial esbarrou rapidamente em reservas e críticas contundentes vindas de Berlim e de Copenhague, deixando clara a existência de fissuras estratégicas que não se apagam com palavras soltas. O encontro dos ministros dos Negócios Estrangeiros do G7, realizado antes das declarações públicas, não produziu a conciliação necessária sobre os dossiês mais espinhosos.
O tom severo do representante alemão surpreendeu: se pela manhã o ministro dos Negócios Estrangeiros elogiara Rubio como “um parceiro real” com “terreno comum”, à tarde ele voltou a exigir que o secretário de Estado pare de dar lições. O ministro da Defesa da mesma chancela acrescentou críticas duras ao ex-presidente americano, acusando-o de ter prejudicado a OTAN em benefício de rivais devido às suas pretensões sobre a Groenlândia. Na sua visão, se os Estados Unidos se tornam imprevisíveis, a aliança perde parte central de seu sentido para os europeus.
Contrastando com a franqueza alemã, o ministro italiano viu no discurso motivos para otimismo: reafirmou que as relações transatlânticas se mantêm “sólidas”. Já a primeira-ministra da Dinamarca foi taxativa ao dizer que a crise envolvendo a ilha ártica “não está resolvida” e que não haverá concessões, deixando claro que o encontro prévio com o secretário americano em nada apaziguou a controvérsia.
De Paris veio ceticismo estratégico: para o ministro francês, a retórica conciliadora de Rubio dificilmente mudará a trajetória de uma Europa que procura maior autonomia e capacidade de dissuasão, incluindo debates sobre o alargamento do guarda-chuva nuclear francês — um tema quente após anúncio do chanceler alemão, segundo relatos.
O secretário-geral da aliança garantiu publicamente que não há iniciativas para substituir o guarda-chuva nuclear dos Estados Unidos e que outros debates em curso são complementares à defesa coletiva existente, tentando, de modo calculado, reduzir ruídos no tabuleiro institucional.
Do ponto de vista estratégico, as reações europeias configuram-se como um teste de resistência: há um reconhecimento formal da importância do eixo ocidental, mas também uma exigência por sinais concretos de confiabilidade. As palavras de Rubio funcionaram como um primeiro movimento — talvez um avanço de peão — mas não removeram a necessidade de jogadas táticas mais profundas. A diplomacia europeia, agora, espera ações que traduzam compromissos tangíveis, não apenas retórica.
Como analista, observo que estamos diante de uma tectônica de poder em que alianças se recalibram: a União Europeia busca afirmar alicerces próprios enquanto mantém a nave-mãe transatlântica em vista. O momento exige, portanto, não só gestos simbólicos, mas acordos operacionais e garantias claras, sob pena de redesenhar fronteiras de influência de forma menos previsível. Em termos de realpolitik, o discurso de Rubio foi uma oferta; a resposta europeia, variada e obstinada, sinaliza que aceitar essa oferta exigirá concessões concretas e verificáveis.





















