O ex-presidente Obama escolheu o popular podcast do comentarista progressista Brian Tyler Cohen para, de forma ponderada e grave, comentar publicamente — pela primeira vez — o episódio que agitou o debate político nos Estados Unidos: o vídeo de teor racista publicado no Truth Social, atribuído a apoiadores de Trump e removido em seguida, que mostrava imagens insultuosas dirigidas a ele e à ex-primeira-dama Michelle.
Numa fala medida, sem citar nominalmente o atual ocupante da Casa Branca, Obama descreveu o clima político como uma espécie de “política clownesca“, um espetáculo destituído de decoro que corrói os alicerces da convivência cívica. “Já assistimos ao declínio do debate — observou Tyler Cohen, reproduzindo o fio da conversa —. Como saímos deste ponto em que nos encontramos?”
O ex-presidente, sereno e seguro, insistiu que a maior parte dos americanos persiste em ter um sentido de respeito e civilidade. “É verdade — admitiu —, isso chama atenção, gera distração. Mas eu continuo a viajar, a conversar com gente, e as pessoas ainda acreditam no decoro, na gentileza e na cortesia.”
Na análise de Obama, o que se vê nas redes e na televisão muitas vezes se assemelha a um espetáculo provocatório, um show que substitui a argumentação pela escárnio: “Assistimos a uma espécie de espetáculo clownesco nas redes sociais e na televisão. Parece não haver mais constrangimento entre aqueles que antes mantinham necessidade de um mínimo de respeito pela instituição que ocupam. Tudo isso se perdeu.”
Com a calma de um diplomata que observa o tabuleiro antes de mover uma peça decisiva, Obama traçou uma leitura de médio prazo. Lembrou que, em exemplos como o de Minneapolis, os americanos demonstraram uma fibra diferente — um comportamento que, segundo ele, revela um tecido social ainda capaz de responder com responsabilidade. “É esse o dado importante”, afirmou, projetando que a difusão de mensagens agressivas e depreciativas tende a penalizar a corrente política associada a Trump nas eleições de meio de mandato.
O veredito do ex-presidente foi claro e de tom institucional: “No fim, a resposta virá do povo americano“. Não se tratou de um apelo retórico, mas de uma constatação estratégica sobre a tectônica de poder em gestação: as ações nas mídias e os discursos públicos são peças no tabuleiro, e a reação das urnas pode redesenhar fronteiras invisíveis de influência.
Como analista, registro que o episódio revela fragilidades na arquitetura do discurso público: quando o debate se economiza em argumentos e se expande em insultos, as instituições ficam mais expostas. A questão colocada por Obama é se a sociedade americana, com seus mecanismos de freios e contrapesos, conservará a coragem de preservar normas de respeito e dignidade — ou se permitirá que a linguagem do escárnio redesenhe as regras do jogo político.
Em suma, o ex-presidente não apenas condena o episódio — ele aposta num movimento decisivo no tabuleiro democrático: a resposta virá do eleitorado, que tem a palavra final em uma democracia consolidada.






















