Por Marco Severini — No delicado tabuleiro das políticas universitárias, um experimento de inclusão na Universidade de Limoges virou, nas últimas semanas, um estudo impromptu sobre os limites entre confiança e abuso. O regulamento introduzido em outubro de 2025 — destinado a ampliar a inclusividade e proteger estudantes que convivem com ciclos menstruais debilitantes — passou a ser explorado por dezenas de jovens como pretexto para ausência.
Segundo apurações internas e fontes acadêmicas, cerca de cinquenta alunos da escola de engenharia aproveitaram o dispositivo de licença menstrual — permitido a toda a população estudantil sem exigência de atestado médico e limitado a dez dias por ano — para faltar a aulas obrigatórias. Na prática, os docentes registraram um pico atípico de faltas: aproximadamente cem dias acumulados por estudantes do sexo masculino nos primeiros três meses de vigência do mecanismo.
O formato adotado em Limoges foi pensado como uma medida de dignidade e privacidade: como explicou Raphaël Jamier, vice-presidente estudantil, a extensão do benefício a todos visava a “evitar qualquer forma de estigmatização”, incluindo pessoas em processo de transição de gênero que podem não constar oficialmente como mulheres nos registros. Contudo, a boa intenção esbarrou em uma vulnerabilidade operacional explorada por alguns estudantes, que transformaram um direito de saúde em instrumento de assenteísmo.
Docentes reagiram com ceticismo e indignação. A saída encontrada por parte dos homens foi interpretada por professores como falta de respeito para com colegas que enfrentam dores reais e incapacitantes durante o ciclo. Em nota oficial, a universidade advertiu que a autorização é “menstrual e não mensal” e advertiu que o uso fraudulento do benefício acarretará sanções disciplinares.
Este episódio em Limoges não é um caso isolado na Europa. Na esteira da Espanha, que em fevereiro de 2023 aprovou licença menstrual em nível nacional, várias instituições francesas vêm experimentando soluções locais semelhantes. Porém, enquanto não houver uma lei-quadro na França, essas iniciativas regionais ficam expostas a contestações administrativas e a uma instabilidade normativa que pode comprometer sua longevidade.
Os argumentos a favor do dispositivo apoiam-se em dados científicos: pesquisa do Inserm (outubro de 2023), com mais de 21 mil mulheres, indica que 90% relatam sofrimento durante o ciclo e cerca de 40% descrevem dor de moderada a grave intensidade. São números que reforçam a visão da licença como política de saúde pública e não como privilégio.
Do ponto de vista estratégico e institucional, o episódio de Limoges expõe dois vetores simultâneos: a necessidade de alicerces legais robustos para políticas de bem-estar e a fragilidade das arquiteturas de confiança quando uma regra ampla encontra um ambiente de controle parcial. É um movimento no tabuleiro que obriga reavaliações táticas — ajustar mecanismos de verificação, preservar a privacidade e, ao mesmo tempo, garantir que a medida cumpre sua função social sem ser distorcida por usos indevidos.
Em suma, a experiência demonstra que a tectônica de poder em torno das políticas de saúde estudantil exige tanto generosidade normativa quanto instrumentos claros de governança. Limoges pode vir a ser um caso de estudo sobre como políticas progressistas demandam, para se enraizar, instituições capazes de responder a intentos fraudulentos sem sacrificar a dignidade daqueles que realmente necessitam.


















