Kaja Kallas, Alta Representante da União Europeia para a Política Externa e de Segurança, proferiu nesta Conferência de Segurança de Munique uma avaliação que redesenha, com tremenda clareza, o estado atual da Rússia no tabuleiro geopolítico.
Na sua intervenção, Kallas afirmou que a Rússia não é uma superpotência, mas antes “um país ao sbando”, com uma economia em frangalhos e progressivamente desligada dos mercados energéticos europeus. A imagem projetada é a de uma potência cujos alicerces económicos e diplomáticos se corroeram, levando mesmo cidadãos a procurar rotas de fuga para fora do território.
Do ponto de vista estratégico, a mensagem de Kallas foi cristalina: qualquer resultado negociado não pode conceder à Rússia mais do que conseguiu impor no campo de batalha. Este risco — que uma cessão indevida venha a consolidar ganhos militares — é descrito por ela como “a maior ameaça” do momento. Em linguagem de tabuleiro de xadrez: não se pode validar um xeque-mate conquistado por meios que violaram as regras do jogo.
Kallas recordou o preço humano acumulado após mais de uma década de conflito — incluindo quatro anos de guerra em larga escala — e sublinhou que a invasão russa mal ultrapassou as linhas de 2014, a um custo convertido em cerca de 1,2 milhão de vítimas. Este dado serve como base para a sua reivindicação de limites claros: se as dimensões do exército ucraniano devem ser discutidas, as dimensões do exército russo também o devem ser; se houve danos e crimes, a Rússia deve responder economicamente e juridicamente.
Entre exigências concretas, Kallas listou: nenhuma amnistia para crimes de guerra; retorno imediato das crianças ucranianas deportadas; e responsabilidade financeira pelos danos infligidos à Ucrânia. São condições que, em sua visão, constituem o mínimo aceitável para qualquer projeto de paz duradouro.
Sobre a participação europeia nas negociações, a Alta Representante advertiu que a União não deve pedir permissão para sentar-se à mesa: é a Europa que determina, em grande medida, o alcance das consequências, a começar pelas sanções. O redirecionamento da pauta das negociações deverá ter a Europa como protagonista, discutindo desde já as suas linhas de resultado.
Num contraponto retórico à narrativa de decadência ocidental, Kallas rejeitou a ideia de uma Europa “woke” e em desmoronamento. Pelo contrário, lembrou que o projeto europeu continua atrativo: citou dados do Canadá, onde mais de 40% dos entrevistados manifestaram interesse em integrar a União Europeia — um sinal de soft power que desafia a tectônica de pessimismo sobre o Ocidente.
Em suma, a intervenção de Kaja Kallas na Conferência de Munique delineia um desenho estratégico onde a paz desejada passa por responsabilização, limites militares recíprocos e uma Europa que se recusa a ceder o seu papel-chave no acordo final. Como analista, enxergo essa declaração como um movimento decisivo no tabuleiro: reposiciona a UE não apenas como mediadora, mas como guardiã das condições que definem uma paz legítima e sustentável.
Marco Severini — Espresso Italia






















