Por Otávio Marchesini – Espresso Italia
Em um confronto que sintetiza a ambivalência do crescimento esportivo, a Itália saiu de Dublin com a sensação agridoce de quem venceu uma etapa e perdeu a corrida. Depois de dominar a primeira metade do jogo e chegar ao intervalo vencendo por 10-5, os Azzurri sofreram a reação da Irlanda na segunda etapa e foram derrotados por 20-13 na segunda jornada do Sei Nazioni 2026.
O saldo não é meramente estatístico. Há sinais claros de progresso: a precisão ao pé de Paolo Garbisi, a combatividade de Nicotera e a entrega de Lynagh moldaram momentos de verdadeira competitividade italiana. Ainda assim, o resultado final reflete limites na capacidade de manter o desempenho por 80 minutos diante de um adversário que escalou velocidade e intensidade no retorno do vestiário.
Os primeiros minutos mostraram uma Itália compacta, defendendo com organização e neutralizando algumas investidas irlandesas. Aos 11 minutos veio o primeiro incidente importante: Lynagh recebeu cartão amarelo por um in avanti intencional, deixando os visitantes com um jogador a menos por dez minutos. Mesmo assim, a equipe não desmoronou e sustentou um trabalho defensivo que permitiu contragolpes eficazes.
Aos 17 minutos, a Irlanda aproveitou a superioridade numérica para marcar com Osborne, enquanto a conversão foi desperdiçada, mantendo o placar em 5-0. A resposta italiana foi pontual: Garbisi converteu um golpe de castigo aos 20 minutos. Já perto do intervalo, uma maul bem conduzida culminou na marcação de Nicotera, e a transformação de Garbisi colocou a Itália na frente por 10-5 ao soar do apito para o intervalo.
No segundo tempo, entretanto, a dinâmica virou. A Irlanda ampliou a pressão e, aos 42 minutos, Conan atravessou a defesa azzurra para reduzir a vantagem — a transformação não foi convertida. A Itália ficou por longos trechos dentro dos 22 adversários tentando responder, mas erros de execução e decisões de arbitragem desfavoráveis impediram a concretização das chances criadas.
Aos 57 minutos, Baloucoune rompeu o sistema defensivo italiano e apoiou no centro, com Crowley acertando a conversão e deixando os anfitriões em 17-10. Nos instantes finais, houve um último e vigoroso assalto dos visitantes: Garbisi tentou a touche curta próxima à bandeira, Menoncello buscou o rompimento e Lynagh tentou a investida decisiva, mas o relógio não foi cúmplice. A partida encerrou-se em 20-13 a favor da Irlanda.
O contexto técnico também merece atenção. O treinador argentino manteve praticamente o mesmo time que iniciou a vitória sobre a Escócia no Olímpico, com a única alteração forçada de Brex por Lorenzo Pani. A dupla de meia foi formada por Fusco ao lado de Garbisi, enquanto a segunda linha de flankers repetiu Zuliani e Lamaro, confirmando a aposta na consistência do elenco. Na relação de banco houve uma mudança estrutural importante: a convocatória passou a 6+2, com Odiase entrando como sexto avançado.
Mais do que resultado, a partida revela um país em processo de construção rugbyística: há sinais de identidade tática e atlética, mas falta ainda a regularidade que transforma melhora em triunfo sustentável fora de casa. Em termos simbólicos, estádios como o Aviva são espelhos do que é exigido para subir de patamar — resistência física, disciplina e experiência para administrar os 80 minutos. A derrota em Dublin não apaga o progresso, mas é lembrete severo de que a margem entre competitividade e vitória ainda será construída jogo a jogo.






















