Jutta Leerdam entregou aos espectadores de Milano Cortina 2026 não apenas uma prova de excelência atlética — com o ouro nos 1000 metros e recorde olímpico — mas também uma cena que traduz a intersecção entre esporte, imagem pública e intimidade em tempos de redes sociais. A holandesa consolidou-se como protagonista dos Jogos de Inverno, e sua trajetória no speed skating ganhou contornos de narrativa pública quando, após o triunfo no Speed Skating Stadium, dividiu o momento com o namorado, o pugilista e criador de conteúdo Jake Paul.
Nos dias que sucederam a vitória, a campeã postou em suas stories do Instagram imagens do Village Olímpico que transcendiam estatísticas: um pin especial em celebração ao San Valentino, mensagens com corações e a reprodução de uma pergunta simples e direta do companheiro — em italiano: “Jutta, vuoi essere il mio San Valentino?” — publicada como dedicatória. A cena é discreta nos gestos, mas ruidosa em significado: o momento pessoal de uma atleta em plena vitrine pública.
É evidente que, hoje, a performance esportiva circula nas mesmas plataformas em que se negociam afetos e marcas. A presença de Paul, figura que transita entre o boxe e o universo dos influencers, acrescenta uma camada de narrativas — comercial, midiática e afetiva — ao feito técnico de Leerdam. Para além das imagens de comemoração, havia lágrimas que atestavam a intensidade da conquista; para além do ouro, havia um cotidiano afetivo sendo narrado em tempo real.
Como analista e observador da cultura esportiva, vejo nesse episódio uma continuidade histórica: atletas sempre se situaram num lugar público, símbolo de identidades coletivas. O que mudou é o ecossistema da exposição. O ouro olímpico permanece como marca de excelência, mas sua reverberação agora é medida em curtidas, stories e consequentemente em uma economia de atenção que atravessa federações, patrocinadores e a própria memória coletiva dos Jogos.
Para a cidade-sede e para a Itália, episódios assim contribuem para a narrativa dos Jogos — não apenas como palco de provas técnicas, mas como microcosmo onde relações sociais, economia da imagem e tradição esportiva dialogam. A foto do pin de San Valentino no Village Olímpico é pequena no plano material, mas simbólica: recorda que os atletas vivem uma simultaneidade de papéis. São competidores, celebridades, parceiros afetivos e, em muitos casos, veículos de mensagens culturais.
Jutta Leerdam retornará à pista, e a pergunta compartilhada por Paul ficará como um episódio na memória desses Jogos — parte de uma narrativa maior que combina suor, técnica e a maneira como escolhemos contar vitórias. O apelo das histórias pessoais não diminui o valor do feito; pelo contrário, coloca-o em perspectiva humana, lembrete de que por trás do recorde há também uma vida afetiva que atravessa o espetáculo.
Em Milano Cortina 2026, o esporte segue sendo espelho social: reflete escolhas, tensões e afeto. E, por ora, registra também um San Valentino celebrado entre medalhas e o murmúrio das redes, com direito a declaração pública do pugilista-influencer que acompanhou, nos bastidores, o coro triunfal da pista.






















