Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
A campeã americana Lindsey Vonn anunciou que se submeteu à sua quarta operação decorrente da forte queda sofrida durante as provas nas Olimpíadas de Inverno Milano-Cortina. Em uma mensagem destinada aos seus torcedores, a atleta afirmou que o procedimento correu bem e que em breve retornará aos Estados Unidos para prosseguir o processo de recuperação.
“A operação foi bem hoje! Por sorte, poderei finalmente voltar aos Estados Unidos! Quando voltar darei mais atualizações e informações sobre a minha lesão”, escreveu a esquiadora, numa declaração que mistura objetividade clínica com a contenção emocional habitual de quem conhece bem os riscos da modalidade.
Vonn, uma figura que transcende o campo esportivo e dialoga com narrativas maiores sobre coragem e risco, pediu aos fãs que não fiquem tristes. “Li muitas mensagens e comentários dizendo que o que me aconteceu os deixa tristes. Por favor, não fiquem tristes. Espero, em vez disso, dar força para continuarem lutando, porque é isso que estou fazendo e farei sempre.”
Ao reconstituir mentalmente o momento do acidente, a americana foi clara: sabia o que estava fazendo ao sair do portão de partida. “Quando penso no meu choque, não estava no portão de partida alheia às potenciais consequências. Eu sabia o que estava fazendo. Escolhi correr o risco. Todo esquiador no portão de partida corre o mesmo risco.” Essa responsabilidade voluntária — aceitar o perigo para buscar uma realização — é um ponto que Vonn enfatiza com franqueza ética: prefere arriscar-se a viver com arrependimentos.
Em termos físicos e mentais, a atleta sustenta que estava num momento de altíssimo desempenho. “Fisicamente eu estava mais forte do que no passado, certamente mais forte do que quando encerrei minha carreira em 2019. E mentalmente eu estava perfeita: clara, concentrada, com fome, agressiva e, ao mesmo tempo, completamente tranquila.” Nas semanas anteriores, Vonn havia subido ao pódio com frequência — duas vitórias e liderança do ranking — enxergando a temporada como um ensaio para as Olimpíadas.
Há, na sua mensagem, um gesto cultural e simbólico: a aceitação do risco como componente inerente à busca pelo sonho. “Nada é garantido na vida — conclui —. Essa é a aposta de perseguir seus sonhos; você pode cair, mas se não tentar, nunca saberá. Então, por favor, não fiquem tristes. Valeu a pena até cair. Quando fecho os olhos à noite não tenho arrependimentos e permanece o amor que sinto pelo esqui.”
O episódio de Milano-Cortina reabre debates sobre segurança, preparação e a própria natureza das competições de alto risco, mas também revela, numa perspectiva histórica e humana, como um atleta de elite constrói significado pessoal a partir do conflito entre ambição e perigo. Vonn encerra a declaração com um olhar firme para o futuro: “Não vejo a hora de estar novamente no alto da montanha. E eu vou.”
Enquanto a recuperação prossegue, a história de Vonn permanece como uma narrativa que extrapola estatísticas e pódios — é um comentário sobre coragem, escolhas e aquilo que a sociedade escolhe valorizar quando aplaude a elite dos esportes de risco.






















