Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Um episódio de arbitragem dominou as atenções do clássico de San Siro entre Inter e Juventus. No minuto 42 do primeiro tempo, Pierre Kalulu recebeu o segundo cartão amarelo e foi expulso, provocando protestos veementes do defensor francês e do banco juventino. O lance, entretanto, revela mais do que uma decisão isolada: expõe limites do uso do VAR, a persistência da simulação como problema e o impacto imediato sobre dinâmicas táticas e simbólicas do confronto.
O desencadeador foi uma intervenção de Kalulu sobre Bastoni, que vinha iniciando a transição ofensiva do time nerazzurro. O árbitro Lorenzo La Penna mostrou o segundo amarelo na hora, convertendo-o em cartão vermelho. As imagens, porém, indicam que o zagueiro francês não chega a atingir o adversário: quem provoca a queda é justamente Bastoni, já advertido anteriormente. A interpretação do árbitro foi influenciada pela simulação, e a repetição do lance colocou em evidência uma falha prática do sistema de revisão.
O VAR foi acionado, mas não pôde reverter a decisão: o protocolo de revisão permite interferência quando há erro claro em lances que levam a expulsão direta, pênaltis ou outros fatos decisivos, mas não corrige punições acumuladas quando o árbitro aplica um segundo amarelo. Assim, mesmo com imagens que deixam dúvidas, a decisão de campo permaneceu. A Juventus ficou com um a menos para os minutos finais do primeiro tempo e para toda a etapa complementar — um desdobramento tático e moral significativo.
Antes disso, o primeiro amarelo recebido por Kalulu já suscitara controvérsia: a entrada sobre Barella foi interpretada por muitos como passível de questionamento. Diante desse panorama, as queixas dos bianconeri — incluindo a reação acalorada do treinador Luciano Spalletti na beira do campo — têm lastro. A movimentação do técnico e a substituição adotada por Cristian Chivu no intervalo (retirando Bastoni) reforçam a percepção de que o episódio condicionou a leitura tática do confronto.
Do ponto de vista histórico e cultural, o lance funciona como um microcosmo das tensões contemporâneas no futebol: a coexistência entre avanço tecnológico (o VAR) e limitações humanas, as estratégias que exploram lacunas regulamentares e a polarização emocional que converge em estádios emblemáticos como San Siro. Quando um jogador é expulso por acumulação de amarelos originados em uma simulação adversária, não se trata apenas de uma ausência numérica; é um indicativo de como mecanismos disciplinares podem decidir rumos de temporadas e narrativas de clubes.
Para a Juventus, ficar em inferioridade numérica diante do rival fortalece o efeito simbólico da partida: não é apenas um revés esportivo momentâneo, mas uma ferida na relação com a arbitragem que tende a reverberar na opinião pública e nas redes. Para o Inter, o episódio trouxe benefícios imediatos, embora a substituição de Bastoni no intervalo testemunhe a própria fragilidade tática desencadeada pelo choque.
Em termos práticos, a expulsão de Kalulu determina que a Juventus jogue praticamente toda a segunda etapa reduzida, forçando Chivu a reordenar peças e imaginar uma leitura defensiva mais compacta. No plano mais amplo, o caso reacende perguntas sobre revisão de protocolos do VAR e a necessidade de medidas mais eficazes contra a simulação — temas que ocupam federações, clubes e a opinião pública europeia.
Ao final, permanece a sensação de que o árbitro aplicou a regra conforme percebeu o lance, mas que as regras e tecnologias em vigor ainda deixam margem para decisões que alteram profundamente partidas de alto significado. O clássico de San Siro, assim, virou mais um capítulo na história das disputas esportivas modernas, onde a justiça do campo nem sempre coincide com a verdade das imagens.






















