Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Em noite tensa no San Siro, o confronto entre Inter e Juventus, sábado 14 de fevereiro, ficou marcado por um episódio disciplinar que virou foco das discussões pós-jogo: a expulsão de Pierre Kalulu no final do primeiro tempo. O lance, ocorrido aos 42 minutos, expõe com clareza as limitações atuais do recurso tecnológico e os dilemas da arbitragem sobre simulação e disciplina.
Kalulu, que já havia recebido um primeiro cartão amarelo considerado discutível após uma entrada sobre Barella, foi novamente admoestado por uma intervenção sobre Alessandro Bastoni, que estava iniciando a transição ofensiva do time nerazzurro. O árbitro La Penna mostrou de pronto o segundo cartão amarelo e, consequentemente, o cartão vermelho, obrigando o defensor francês a deixar o gramado antes do intervalo.
As imagens, porém, sugerem que Bastoni não foi atingido de forma substancial: o defensor do Inter simulou uma queda que induziu o árbitro ao erro. A sequência inflamou as reações no banco juventino, com protestos vigorosos do próprio Kalulu e do técnico Luciano Spalletti. O pedido de revisão via VAR foi acionado, mas esbarrou numa restrição técnica importante: o vídeo-árbitro não pode recuar uma advertência já aplicada quando se trata de um segundo amarelo — a ferramenta revisa incidentes que possam resultar em expulsão direta, não no acerto ou erro sobre uma repetição de amarelos.
Assim, a decisão tomada em campo permaneceu inalterada e a Juventus ficou com dez jogadores para os minutos finais da etapa inicial e para toda a segunda etapa. Do lado do Inter, Bastoni, que já estava amarelado e que celebrou o desfecho do lance, acabou substituído por opção do técnico nerazzurro Cristian Chivu no intervalo — uma leitura conservadora do treinador, que preferiu evitar maiores riscos disciplinares ou físicos.
O episódio abre dois planos de leitura. Primeiro, o técnico: a gestão de riscos em partidas de alta tensão leva a decisões pragmáticas, como a substituição de um jogador cujo comportamento pode atrair mais punições. Segundo, o estrutural: o caso escancara um vácuo regulatório no uso do VAR, onde a tecnologia, embora poderosa, não corrige todos os equívocos humanos, sobretudo quando a punição aplicada é cumulativa (dois amarelos) e não direta (cartão vermelho direto).
Há também uma dimensão cultural. Em clássicos como Inter–Juventus, as ações em campo reverberam na memória coletiva das torcidas e alimentam narrativas sobre justiça, favorecimento e memória das rivalidades. Uma decisão de arbitragem, mesmo que técnica e isolada, assume contornos identitários: clubes interpretam erros como parte de um tecido maior de disputas institucionais.
Como repórter atento às estruturas que moldam o esporte, registro que a controvérsia de San Siro não é apenas um episódio de jogo — é também um sintoma. Sintoma de regras que ainda não acompanham totalmente a intenção do VAR, de práticas de simulação que desafiam a ética competitiva e de uma imprensa que, inevitavelmente, transforma lances em tópicos políticos e culturais.
Nos próximos dias, a reação oficial da Juventus, possíveis relatórios da comissão disciplinar e eventuais imagens adicionais podem ampliar ou atenuar críticas. Até lá, permanece a imagem de Kalulu deixando o campo sob protestos e a imagem histórica do clássico marcada por mais uma controvérsia de arbitragem.






















