Por Otávio Marchesini — A expulsão de Pierre Kalulu no clássico Inter-Juventus transcendeu a crônica esportiva local e acendeu um debate internacional sobre arbitragem, simulação e responsabilidade institucional. Em comentários para a Paramount+ e a CBS, o ex-jogador Vincent Grella afirmou, sem meias palavras, que o árbitro foi “o melhor jogador do Inter” na partida — uma leitura dura que sintetiza a percepção de muitos observadores estrangeiros.
O lance-chave ocorreu aos 42 minutos do primeiro tempo, quando o árbitro La Penna expulsou Kalulu após uma queda provocada por uma clara simulação de Alessandro Bastoni. Bastoni, já amarelado, buscou o contato e simulou o impacto; a queda levou ao segundo cartão amarelo para Kalulu. Para completar a cena, Bastoni comemorou como se tivesse marcado um gol, gesto que inflamou ainda mais a controvérsia.
Grella descreveu o episódio assim: “É um fato, é o que eu vi. No jogo mais importante do ano, o melhor jogador do Inter foi o árbitro. O Inter jogou muito mal, foi ajudado pela arbitragem e não aproveitou o benefício em termos de futebol”. O ex-jogador foi ainda mais incisivo: “Se a Juventus tivesse jogado com 11 hoje teria batido o Inter”.
No mesmo estúdio, Nigel Reo-Coker acrescentou outro viés do debate, apontando para uma questão de princípios e formação: “O problema agora é que muitos jogadores barateiam o jogo e se jogam: isso não faz bem ao futebol nem às crianças que começam a assistir. Muitos árbitros agora confiam demais no VAR e não assumem a responsabilidade de decidir”.
Como analista, é preciso contextualizar além do impacto imediato do cartão vermelho. A expulsão de Kalulu não é só um episódio isolado de má-fé ou erro técnico: ela espelha tensões mais amplas no futebol contemporâneo. Primeiro, há a naturalização da simulação como recurso competitivo — uma prática que corrói a confiança do torcedor e altera a moral esportiva. Segundo, existe um dilema institucional: até que ponto o VAR deve substituir a autoridade do árbitro e quando esse mesmo árbitro deve resistir à tentação de delegar escolhas complexas à tecnologia?
Na Itália, onde o futebol carrega forte carga simbólica e histórica, episódios assim reverberam com intensidade. Estádios, emissoras e redes sociais transformam um lance em narrativa pública e, por vezes, em instrumento político entre clubes, federações e associações de arbitragem. A resposta adequada exige medidas múltiplas: formação continuada de árbitros para decisões mais seguras, campanhas educativas contra a simulação e uma revisão das rotinas de uso do VAR para que a tecnologia complemente, e não dilua, a responsabilidade humana.
Por fim, não se trata apenas de quem venceu o jogo em campo, mas do legado que eventos como este deixam para a percepção do público — em especial para as novas gerações. Quando jogadores celebram uma simulação e quando comentaristas internacionais convergem em crítica, o futebol sinaliza uma necessidade premente de coerência ética. Se a partida foi discutida pela qualidade técnica, acabou sendo decidida, na narrativa pública, por uma interpretação de regras e condutas. Esse é o tipo de episódio que convoca clubes, árbitros e federações a agir com transparência, antes que a credibilidade do espetáculo se desgaste ainda mais.






















