Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O episódio que marcou o clássico de San Siro, vencido pelo Inter por 3-2 contra a Juventus pela 25ª rodada da Serie A, continua a provocar debates técnicos e interpretação do regulamento. Aos 42 minutos do primeiro tempo, um contato que parecia inexistente entre Kalulu e Bastoni levou o árbitro La Penna a mostrar o segundo amarelo ao defensor francês, transformado em expulsão. As imagens, no entanto, deixam claro que o atleta nerazzurro simulou a falta.
O lance se desenrola com simplicidade: Bastoni impõe-se para reiniciar a ação do Inter, Kalulu, já advertido, aproxima-se em tentativa de intervenção e o árbitro concede o segundo cartão. As imagens de repetição evidenciam que não houve contato suficiente para justificar a queda do defensor italiano, que, com um mergulho evidente — uma simulação — induziu o colegiado ao erro.
Importa destacar que Bastoni já havia recebido um amarelo anteriormente; o gesto, além de anti-desportivo, foi seguido por uma celebração imediata quando Kalulu deixou o campo. No intervalo, o técnico nerazzurro Cristian Chivu optou por substituir Bastoni, numa decisão que buscou neutralizar a tensão e evitar consequências piores dentro de campo.
As reações fora das quatro linhas foram intensas. O treinador do time visitante, Luciano Spalletti, dirigiu-se ao árbitro La Penna no intervalo, visivelmente irritado — imagens das arquibancadas o mostram gritando “Você nos arruinou a partida”, acompanhado por dirigentes da Juventus. Entre as vozes que se levantaram, houve a de Giorgio Chiellini, que qualificou o episódio como inaceitável, e a movimentação do dirigente Damien Comolli, contido pela segurança ao deixar o túnel.
Mas o ponto central para a análise disciplinar é a aplicabilidade do recurso por vídeo. Segundo o artigo 61 do Código de Justiça Desportiva, o VAR não pode ser acionado para alterar atos disciplinares que sejam advertências (amarelos) transformadas em expulsões por acúmulo. A simulação, na linha do que preconiza o regulamento, é passível de punição com cartão amarelo, porém a consequente exclusão de Kalulu ocorreu por segunda reprimenda e não por expulsão direta. Assim, não há margem regulamentar para que a prova televisiva revi-sse o ocorrido e convertesse a decisão.
Da perspectiva mais ampla que procuro trazer à cobertura esportiva, o episódio é sintomático de um problema cultural do jogo moderno: a teatralidade deliberada que contamina a legitimidade do resultado e tensiona a relação entre árbitro, atletas e público. Está em jogo não só a integridade de uma partida, mas também valores de fair play e confiança nas instituições reguladoras.
Conclui-se, portanto, que apesar de moralmente censurável e passível de sanção disciplinar em termos gerais, a ação de Bastoni dificilmente resultará em suspensão automatizada via recurso televisivo, dada a leitura estrita do regulamento vigente. Resta à Federação e à Comissão disciplinar avaliar eventuais medidas extrajogo, em função da prova e das implicações sobre a conduta antidesportiva.






















