Por Marco Severini — Em um pronunciamento lido pelo primeiro‑ministro Mohammed Mustafa na abertura do 39º encontro anual da União Africana em Adis Abeba, o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Abu Mazen, afirmou com firmeza a necessidade de que Israel retire “todos os obstáculos” à implementação da segunda fase do cessar‑fogo em Gaza. Em linguagem diplomática, porém direta, o líder de Ramallah sublinhou que as cláusulas acordadas só terão eficácia se o ocupante facilitar o trabalho do comitê técnico palestino encarregado das etapas subsequentes.
O apelo de Abu Mazen assume contornos de urgência política: trata‑se de um pedido para remover entraves operacionais que, na prática, estruturam a transição para a próxima fase do acordo. Em termos de geopolítica do tabuleiro, é um movimento para preservar os alicerces frágeis da diplomacia antes que forças descontínuas redesenhem fronteiras invisíveis de facto.
Na fronteira norte, as tensões prosseguem. O IDF anunciou via Telegram um ataque em curso no sul do Líbano, justificando a operação como resposta a violações do acordo de cessar‑fogo por parte do grupo Hezbollah. O episódio ressalta a natureza multiplex do conflito: não se trata apenas de Gaza, mas de um eixo de influência regional em que cada confronto local pode gerar repercussões estratégicas amplas.
Enquanto isso, dentro de Israel, a pressão política e social não cessa. Manifestantes em Tel Aviv voltaram às ruas para exigir a criação de uma comissão de inquérito independente sobre os eventos de 7 de outubro de 2023. A exigência pública — renovada semanalmente — visa uma investigação apolítica dos ataques perpetrados por militantes do Hamas que, segundo dados oficiais, causaram cerca de 1.200 mortos em solo israelense e desencadearam uma guerra que já resultou, segundo fontes citadas, em mais de 71.000 mortos palestinos, além de uma crise humanitária e deslocamento massivo em Gaza.
No centro do debate político interno, outra frente se abre: o primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu teria solicitado a colaboradores que pedissem ao ministro da Segurança, Itamar Ben‑Gvir, a modificação do projeto de lei que estabelece a pena de morte para terroristas. Reportagens do Ynet indicam que a solicitação responde a receios de repercussões internacionais e a avaliações jurídicas sobre a compatibilidade constitucional do texto original. Órgãos de segurança como o Conselho de Segurança Nacional, o Shin Bet e o Ministério das Relações Exteriores também estariam envolvidos nas conversas para suavizar a redação proposta.
Até o momento, cerca de 1.000 reservas foram protocoladas contra o projeto, majoritariamente por deputados da oposição, e o serviço jurídico da Knesset apontou impedimentos constitucionais na formulação inicial. A disputa revela um jogo de interesses internos e externos em que a legislação penal se torna um peão sensível no tabuleiro diplomático: decisões precipitadas podem comprometer relacionamentos estratégicos e ampliar custos políticos.
Por fim, nota política na Europa: a presidente do Conselho, Giorgia Meloni, comentou sobre o chamado “Board of Peace” do presidente americano Donald Trump, afirmando que a Itália deverá responder positivamente ao convite para participar como observadora, ponderando questões de compatibilidade constitucional. Mesmo essa aparente formalidade europeia integra o desenho mais amplo da tectônica de poder que circunda o conflito.
Em síntese, os acontecimentos das últimas horas expõem a multiplicidade de frentes — diplomática, militar e doméstica — que moldam o futuro imediato da região. A exigência de Abu Mazen para remover obstáculos é um apelo para que as peças sejam novamente alinhadas sobre o tabuleiro antes que movimentos imprevisíveis provoquem uma nova ruptura estratégica.






















