Na dança entre relógio e biologia, a velocidade é o primeiro requisito para que um transplante de coração — e de outros órgãos — seja possível. No caso do coração, os tempos são particularmente curtos: geralmente não podem decorrer mais de cinco horas entre a retirada (prelievo) e o implante no paciente receptor. É uma verdadeira corrida contra o tempo que pede coordenação de equipe, logística precisa e uma organização quase coreográfica.
O Centro Nacional de Transplantes (Cnt) lembra que assegurar o transporte rápido de órgãos e tecidos é uma das fases mais delicadas desse processo complexo. Isso porque os órgãos não suportam conservação por longos períodos: existe um tempo de isquemia — o intervalo em que o órgão fica privado do fluxo sanguíneo e do oxigênio — que varia conforme o tipo de órgão e define o limite entre a viabilidade e o dano irreversível.
As janelas médias de tempo de isquemia são conhecidas: para coração e pulmões, entre 3 e 5 horas; para o fígado, entre 5 e 7 horas; e para os rins, de 12 a 18 horas. Esses números traduzem, em minutos, a urgência com que a logística deve operar — como uma respiração acelerada que exige sincronia entre quem doa, quem retira e quem recebe.
Após a retirada, na maioria dos casos, os órgãos são conservados adequadamente e levados por via rodoviária em ambulâncias ou carros médicos das equipes de emergência regional. Quando as distâncias são grandes e o relógio aperta, o transporte pode ocorrer por via aérea, seja em voos comerciais ou aeronaves privadas. Importante: coração e pulmões costumam sempre viajar acompanhados por uma equipe médica; o fígado, por vezes, pode ser deslocado sem equipe e geralmente segue por avião; o rim normalmente viaja por terra, mas pode ser levado por avião quando necessário.
Existem soluções que parecem retiradas de um romance contemporâneo: em cadeias de doação cruzada para rins, a Polícia Rodoviária coloca à disposição veículos de alta performance — Lamborghini Urus e Huracán — conduzidos por motoristas treinados para altas velocidades. Essa colaboração entre a Polícia de Estado e o Cnt reduz o tempo nas estradas quando cada minuto faz diferença. Em situações excepcionais, quando voos privados não estão disponíveis, o Cnt pode acionar a Presidência do Conselho para mobilizar um voo de Estado em parceria com a Aeronáutica Militar e o 31º stormo.
Outra frente de apoio logístico é a cooperação com a Trenitalia: há um acordo para o transporte gratuito, a bordo das Frecce, de amostras biológicas cuja análise é necessária para confirmar a compatibilidade entre doador e receptor antes de cada transplante. É a forma como a infraestrutura do país respira junto ao sistema de saúde, guiando a colheita de dados que salva vidas.
No episódio recente do menino de Nola, que recebeu um coração danificado pelo processo de transporte, o Cnt qualificou o caso como “inaceitável” e aguarda a verificação de responsabilidades. Esse fato, porém, não deve ofuscar a excelência reconhecida internacionalmente da Rede de Transplantes italiana, que opera com padrões elevados e profissionais dedicados.
Como observador sensível das estações e da vida cotidiana, lembro que o trabalho dos transplantes é também uma metáfora: é a tentativa de transplantar esperança no solo do corpo, respeitando o tempo de isquemia como se respeitássemos as janelas de plantio em um campo. Em cada fase — da retirada ao transporte, do laboratório ao leito — a escuta do tempo interno do corpo dita a urgência. Exigir responsabilização quando algo falha é justo; reconhecer a rede que, na maioria das vezes, funciona como um suspiro coordenado, é necessário.






















