Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
Há na memória do futebol italiano imagens que ultrapassam o imediatismo do placar: a ironia afiada entre os advogados Prisco e Agnelli, símbolos de um derby d’Italia que moldou décadas de rivalidade, ou as noites de San Siro onde se decidiram destinos. Nesta rodada da Serie A volta a haver um confronto carregado de história e significado: Inter e Juventus se encontram com objetivos distintos, mas igualmente definitivos — os nerazzurri para dar mais um passo na fuga pelo scudetto, os bianconeri para preservar a esperança de voltar à zona de Champions.
O clássico entre Inter e Juventus é a cereja num turno que já nasceu repleto de nuances táticas e dramas humanos. Não por acaso cinco das nove partidas do último fim de semana se decidiram nos acréscimos: a competição, como sempre, encontra meios de prolongar a tensão para além dos noventa minutos, reafirmando seu caráter imprevisível.
Do outro lado da tabela, o Napoli, marcado por uma série de lesões que o deixa cada vez mais incerottato, recebe a Roma de Gasp. O time de Gasperini tenta quebrar uma marca negativa contra as chamadas grandes, numa temporada em que cada ponto vale duplamente para disputar as posições de topo. A partida é menos um duelo só de 11 contra 11 e mais um choque entre projetos: um clube que perde por lesões e precisa provar profundidade de elenco; outro que busca confirmar evolução tática e ambição continental.
Há ainda leituras estratégicas espalhadas pelo restante da rodada. A Lazio revigorada por Sarri, animada pela recente semifinal de Coppa Italia, vê na rodada a oportunidade de reduzir o gap para a Atalanta. O time romano, quando encontra coerência de ideias, tende a acrescentar uma narrativa de ressurgimento que mistura nostalgia e eficiência moderna.
No meio da tabela, Torino vive fases alternadas e tenta aproveitar a inesperada crise do Bologna para se aproximar de posições mais confortáveis. Em contraste, o Como — descrito muitas vezes como a surpresa ‘champagne’ desde a chegada de Fabregas — caminha sonhando com a Champions e encara uma Fiorentina que tropeça e ainda não conseguiu se afastar da zona de perigo. Essa justaposição entre sonho e risco é parte do que faz a Serie A contemporânea tão fascinante: histórias de ascensão se entrelaçam com dramas de sobrevivência.
Mais do que tabelas, o que está em jogo são representações: clubes como instituições sociais, atletas como ícones em disputa e treinadores como intérpretes de identidades regionais e táticas. Seja em San Siro, no sul castigado por lesões, ou em estádios menores onde se decide o futuro financeiro de uma cidade, o futebol italiano continua a narrar coisas que excedem o resultado imediato.
Para o leitor atento, as partidas desta semana oferecem mais que previsões: são capítulos de uma temporada que combina herança e renovação. Avaliando os movimentos das equipes e as condicionantes — lesões, calendário e pressões institucionais —, percebe-se que cada rodada reordena expectativas. E quando um clássico como Inter-Juventus se aproxima, não se trata apenas de disputar três pontos: trata-se de disputar memória, ambição e identidade.
Conclui-se que a Serie A segue sendo, para além do espetáculo, um espelho da sociedade que a alimenta — suas certezas, suas inquietações e sua persistente capacidade de surpreender.






















