Por Alessandro Vittorio Romano — Em uma fala que soa como um convite a repensar nosso mapa do corpo, o professor Alessandro Padovani, da Universidade de Brescia e past president da SIN (Società Italiana di Neurologia), lembrou que o cérebro merece atenção equivalente a todos os demais órgãos. No evento promovido pela seção lombarda da SIN, a mensagem foi clara: one brain one health não é apenas um slogan — é um chamado para uma visão unitária da saúde.
Padovani destacou que as doenças neurológicas, incluindo cefaleia e insônia, atingem cerca de um terço da população. Essa estatística, tão simples quanto inquietante, revela uma paisagem de sofrimento cotidiano que muitas vezes passa despercebida: dores de cabeça persistentes, noites interrompidas, a fadiga que se instala como neblina pela manhã. Ainda assim, acrescentou, há muito que podemos fazer — não só para reduzir a incapacidade causada por essas condições, mas para diminuir sua incidência e frequência, inclusive na idade avançada.
Ao falar da necessidade de um conceito integrado de saúde, Padovani evocou uma metáfora que me agrada: pensar no corpo como um ecossistema, onde o cérebro é tanto solo fértil quanto atmosfera. Cuidar desse solo, disse ele nas entrelinhas, é cuidar das raízes do bem-estar. A conferência na Lombardia serviu para testemunhar que trabalhar unidos — neurologia, medicina geral, saúde pública, cuidados comunitários — é o caminho para transformar estatísticas em vidas melhores.
O apelo é prático e sensível. Podemos agir em prevenção: políticas que promovam sono de qualidade, manejo do estresse, atividade física regular e controle de fatores de risco vascular. Podemos melhorar o diagnóstico e expandir o acesso a tratamentos que reduzam incapacidade. E podemos, sobretudo, mudar a narrativa cultural que separa o cérebro do resto do corpo. Quando falamos de saúde integral, estamos falando da respiração da cidade, do tempo interno do corpo, da colheita de hábitos que sustentam cada estação da vida.
Como observador do cotidiano italiano e apaixonado pela interseção entre ambiente e bem-estar, vejo nesta chamada uma oportunidade para que a medicina e a sociedade reconheçam a centralidade do cérebro sem reduzir a experiência humana a um boletim clínico. É preciso sensibilidade — políticas que cuidem da comunidade, da habitação, do trabalho — e também ciência aplicada, acessível e compassiva.
Nas palavras de Padovani, repetidas ao público da seção lombarda da SIN: “Devemos trabalhar sobre um conceito unitário de saúde. Dentro desta saúde há o cérebro e o cérebro conta quanto todo o resto do corpo”. É uma lembrança de que, ao zelar por nossos ritmos internos, cultivamos uma paisagem onde a vida pode florescer com menos dor e mais presença.






















