Livigno — A conquista do bronze no snowboard cross em Milano Cortina teve sabor agridoce para Michela Moioli. Ainda com o rosto marcado pelo tombo sofrido em treino, a atleta falou com franqueza sobre a violência do impacto e sobre a curta distância entre a dor e a superação que marca sua carreira.
“Não morro jamais”, repetiu Moioli em conferência de imprensa, numa frase que resume bem a sua relação com o esporte: ao mesmo tempo desafio e redenção. “Fui devastada pela queda por dois dias. Sem a minha equipa e a minha família eu não teria conseguido partir”, disse a campeã, creditando ao suporte técnico e afetivo a possibilidade de competir apesar das marcas físicas e emocionais.
O episódio em Livigno recorda a dimensão ritual do gesto esportivo: há competições que se vencem na técnica e outras que se ganham na resistência íntima. “Eu frequentemente preciso tocar o fundo. Renasco das minhas cinzas como uma Fênix, mas levo comigo as queimaduras das chamas”, declarou Moioli, numa imagem que conjuga sofrimento e persistência — um arquétipo que faz dela figura de identificação para o público italiano que acompanha o esqui e o snowboard.
Na avaliação da atleta, participar dos Jogos foi o resultado de um ciclo de trabalho intenso: “Vivi para esta Olimpíada nos últimos sete anos”, afirmou. Apesar do desgaste, a sensação que transparece é de amor pelo esporte: “Amo ainda este esporte, gosto mais do que antes, mas quero respirar um pouco”, confessou, sinalizando a necessidade de pausa após a intensidade da preparação e da competição.
Para além da dimensão pessoal, há um efeito coletivo: a presença de Moioli no pódio representa também um momento simbólico para o snowboard italiano, que tem consolidado projeção internacional nas últimas temporadas. A atleta, que já entrou para a galeria de nomes relevantes da disciplina, carrega sobre si expectativas e memórias — e sua declaração pública sobre a queda reforça a narrativa da resistência que é comum às carreiras de alta performance.
O calendário reserva à equipe italiana outro teste importante: no domingo está programado o Team Event, onde a solidariedade técnica e a estratégia coletiva são determinantes. Será uma oportunidade para perceber como o grupo responderá às lesões e ao desgaste acumulado, e também para avaliar a capacidade de Moioli de transpor o impacto físico para um esforço partilhado em equipe.
Como repórter e analista, interessa-me mais que o resultado imediato: interessa-me o que esse episódio diz sobre estruturas de apoio, sobre a cultura do risco no esporte de alto rendimento e sobre a representação pública da dor e da recuperação. A imagem de uma atleta que, mesmo marcada, sobe ao pódio e fala de renascimento, coloca em foco a ambivalência — glória e sacrifício — que define o esporte contemporâneo.
Em resumo: Michela Moioli saiu de Milano Cortina com uma medalha de bronze e com a história pessoal de uma queda que não a derrubou por inteiro. O que vem a seguir, começando pelo Team Event, dirá mais sobre sua forma e sobre a saúde coletiva da equipe italiana de snowboard.






















