Por Chiara Lombardi — Em um movimento que lembra o lento plano-sequência de um filme que revela detalhes aos poucos, a jornalista e apresentadora Monica Marangoni estreia como autora com o ensaio Nudo tra sacro e profano. Dall’età dell’innocenza all’epoca di OnlyFans (Cantagalli, 144 págs.). O livro nasce durante seus estudos de filosofia e das primeiras experiências como modelo, quando Marangoni passou a interrogar a si mesma sobre aquele corpo e aquela imagem que usava — e que ainda usa — em seu trabalho na televisão. Foi assim que começou um verdadeiro viagem pela história da arte e do pensamento em busca do significado e do valor do corpo.
O percurso do livro é um excursus histórico: parte da Grécia clássica, atravessa a Idade Média, o Renascimento e chega à modernidade e à contemporaneidade. Nessa viagem, Marangoni observa como, na Grécia antiga, a nudez atingia sua expressão máxima: o corpo dos atletas não era apenas forma, mas espelho de uma beleza interior. Hoje, ela aponta, vivemos um tempo em que os corpos foram esvaziados de conteúdo e transcendência. É um diagnóstico que atua como um espelho do nosso tempo — o roteiro oculto da sociedade que nos força a perguntar o porquê de tantas superfícies expostas.
Na era das mídias sociais, tudo tende a ser hiperexposto. Marangoni alerta que plataformas e feeds “não escondem mais nada”: o corpo, que para ela é uma realidade sagrada, corre o risco de ser reduzido a mercadoria, espetáculo ou consumo. Casos de corpos maltratados, abusados e exibidos sem dignidade reaparecem como cenas de um filme inspirado pelo pior do voyeurismo digital. Para a autora, a nudez contemporânea está em uma encruzilhada: pode abrir-se para a comunhão — uma relação com o divino — ou ser apropriada pelo circuito do lucro e do espetáculo.
Um dos capítulos mais perturbadores do ensaio trata das aberrações trazidas pela inteligência artificial. Marangoni descreve a nova forma de violência digital como algo que se soma à violência física: imagens e identidades são manipuladas, expostas e destruídas sem consentimento. É uma violência que opera com a sutileza de um efeito visual sofisticado, mas com a brutalidade de um golpe na identidade.
Mesmo assim, o livro não se encerra em desolação. Recuperando leituras da tradição cristã, Marangoni propõe uma terceira via entre o sacro e o profano: a nudez redimida. Na sua leitura, com o cristianismo o corpo torna-se lugar de revelação — um tempio do espírito, capaz de prometer renovação e ressurreição. Esse reframe coloca a nudez não como escândalo, mas como possibilidade de encontro e transcendência — um eco cultural que nos chama a reavaliar o sentido do visível.
No vodcast da Adnkronos, disponível na íntegra no site e no canal YouTube do veículo, Marangoni discute essas questões com a calma atenta de quem observa uma cena emblemática e tenta entender sua construção. O leitor brasileiro encontra aqui não apenas um tratado sobre imagens do corpo, mas um ensaio que funciona como lente crítica sobre nossos hábitos visuais: a obra nos convida a desacelerar o olhar e a recuperar o mistério que habita o corpo humano.
Em suma, Nudo tra sacro e profano é uma reflexão cultural que mistura história da arte, filosofia e denúncia social — um roteiro que nos obriga a olhar para a nudez com olhos menos simplistas e mais curiosos. É leitura recomendada para quem acredita que o entretenimento e a imagem são sempre, também, território de sentido.
Dados do livro: Nudo tra sacro e profano. Dall’età dell’innocenza all’epoca di OnlyFans — Cantagalli, 144 páginas.





















