Por Chiara Lombardi — Entre o brilho das gárgulas e o peso da história, o Duomo de Milão ganhou uma nova cena: a restauração da estátua conhecida como «Santo barbuto con libro», uma peça com cerca de 600 anos que volta a olhar a cidade com gesto renovado. O trabalho faz parte do projeto Adotta una statua, iniciativa da Veneranda Fabbrica del Duomo para proteger e valorizar o patrimônio escultórico da catedral.
Na cerimônia de descerramento, Fedele Confalonieri, presidente da Veneranda Fabbrica del Duomo, destacou o simbolismo da escolha: “Se conseguimos encantar — e, por que não, convidar — as 60–70 mil pessoas que passam por aqui diariamente a ler um pouco mais, teremos feito uma boa obra”. É uma observação simples que funciona como um refrão do nosso tempo: a arte como porta de entrada para práticas cotidianas que resistem ao imediatismo digital.
O restauro foi financiado em parte por doações do Grupo Fnm. Confalonieri agradeceu publicamente esse apoio e mencionou também o papel das instituições: “São recursos que chegam ao Duomo, que sempre precisa. Apesar do boom turístico em Milão, o Duomo ainda sente os efeitos da pandemia. Devemos agradecer a apoiadores como a Ferrovie Nord e também à Região da Lombardia, que nos ajudaram e continuam a ajudar”.
Mais do que um restauro técnico, este acontecimento é um pequeno espetáculo simbólico: uma estátua com um livro na mão que retorna ao cenário urbano num momento em que ler virou ato quase subversivo diante do fluxo constante de imagens e telas. É como se a catedral, por meio desta figura, oferecesse um espelho do nosso tempo — lembrando que o patrimônio material também é veículo de hábitos imateriais, como a leitura.
O projeto Adotta una statua transforma o roteiro oculto da cidade em uma rede de cuidados: cada intervenção preserva a materialidade das obras e, simultaneamente, alimenta narrativas culturais que cruzam memória coletiva, turismo e responsabilidade cívica. Nesse sentido, a contribuição do Grupo Fnm não é apenas financeira; é parte do reframe da relação entre infraestrutura, mobilidade e cultura urbana.
Para quem passa pelo Duomo, a presença renovada do «Santo barbuto con libro» pode ser lida como um convite discreto: aproximar-se dos livros, desacelerar, reconhecer que cada pedra e cada escultura carrega um fragmento do passado que nos ajuda a interpretar o presente. Em tempos de consumo acelerado de imagens, restaurar uma estátua com um livro é, por si só, um gesto de resistência cultural.
O evento e o restauro reforçam uma ideia que me parece urgente: patrimônios públicos bem cuidados não apenas embelezam a cidade; eles propõem um roteiro alternativo de sentido. E quando instituições como a Veneranda Fabbrica del Duomo conseguem parcerias — estatais e privadas, regionais e corporativas, como a Ferrovie Nord e o Grupo Fnm —, o resultado é um eco cultural que reverbera além da catedral, alcançando leitores potenciais entre os milhares que circulam diariamente por aquela praça histórica.
Em suma, o gesto é pequeno na superfície e vasto no impacto simbólico: uma estátua com um livro devolvida à cidade, convidando todos a ler, refletir e participar do restauro contínuo da memória coletiva.






















