Por Chiara Lombardi — Em Milão, a cerimônia de descerramento da estátua “Santo barbuto con Libro”, restaurada no âmbito do projeto Adotta una statua da Veneranda Fabbrica del Duomo, virou um pequeno espelho do nosso tempo: um gesto de cuidado com o patrimônio que se transforma em política simbólica de cidade. O presidente da Regione Lombardia, Attilio Fontana, destacou que a beleza tem um papel cívico ativo — e pode mesmo ajudar a difundir o senso de legalidade.
“Adotar uma estátua valoriza o patrimônio, garante sua manutenção e contribui para tornar mais visíveis os lugares públicos onde as pessoas se encontram”, afirmou Fontana no evento. Para ele, olhar para algo belo cria uma inibição tácita contra ações ilegítimas: “De frente para uma coisa bela, é mais difícil colocar-se em condições de cometer algo de ilegítimo”.
O restauro da peça — uma intervenção que exigiu precisão e conhecimento artesanal — foi também possível graças às doações do Gruppo Fnm, parceiro da iniciativa. O governador resumiu a intenção do projeto como “devolver a beleza aos cidadãos” e elogiou “a grande manualidade das pessoas que realizaram a recuperação e o restauro”.
Como analista cultural, observo que projetos como Adotta una statua atuam em várias camadas: preservam a memória material, recuperam técnicas manuais muitas vezes esquecidas, e ressignificam o espaço urbano, transformando o comum em cenário de encontro e de reflexão. A estátua restaurada no Duomo não é apenas uma peça recuperada: é um pequeno roteiro de identidade coletiva que nos lembra que o patrimônio artístico é também um regulador social — um reframe da realidade em que o belo exerce uma espécie de autoridade moral.
Há uma semiótica do viral na cidadania: quando um monumento é cuidado, a praça ao redor se comporta diferente; as conversas mudam, os passos desaceleram, e o lugar recupera dignidade. Esse efeito simbólico é parte do argumento de Fontana — e está alinhado a práticas europeias que conectam conservação e coesão civil.
Do ponto de vista técnico, o restauro do “Santo barbuto con Libro” exigiu intervenções delicadas para garantir a integridade material sem apagar camadas históricas. É um exemplo de como a recuperação do patrimônio é ao mesmo tempo ciência, ofício e poética: uma encenação restauradora que devolve ao público não apenas um objeto, mas uma experiência estética e cívica.
Ao final, o gesto coletivo — da instituição que promove, das empresas que financiam e dos restauradores que trabalham com as mãos — revela um roteiro oculto da sociedade: a crença de que, ao cuidar da beleza comum, cultivamos também regras de convivência. Em tempos de fragmentação, iniciativas assim funcionam como pequenas âncoras culturais, lembrando que o patrimônio é um bem que fala do presente tanto quanto do passado.
Chiara Lombardi é analista cultural da Espresso Italia. Escreve sobre como cinema, arte e patrimônio moldam narrativas sociais e memórias coletivas.






















