Em um gesto que mistura responsabilidade cívica e cuidado patrimonial, a empresa Fnm apresentou hoje em Milão, no Piazzale Cadorna, a estátua do Santo barbuto com Libro restaurada. A ação integra o projeto Adota uma estátua, promovido desde 2020 pela Veneranda Fabbrica del Duomo de Milão, cujo objetivo é financiar e executar intervenções de conservação para devolver ao público o esplendor de peças removidas ao longo dos séculos por motivos conservativos.
O retorno da obra à visibilidade pública não é apenas um restauro técnico: trata-se de um pequeno reframe da memória urbana. A peça agora colocada substitui a estátua oitocentista de San Abdon, visível ao público desde junho de 2022, quando a Fnm aderiu ao programa de adoções. Esse movimento ilustra como parcerias entre instituições culturais e patrocinadores contemporâneos funcionam como um roteiro oculto da sociedade, onde o financiamento privado recupera fragmentos do passado para que possam novamente dialogar com o presente.
O restauro do Santo barbuto com Libro devolve à superfície texturas, nuances e leituras que o tempo e a ação humana haviam atenuado. Em termos semióticos, cada risco polido, cada recessão novamente definida, reativa a presença da escultura no cenário monumental do Duomo de Milão e, por extensão, no espelho do nosso tempo: como conservamos aquilo que nos constitui e que continuamos a ver como valor simbólico e estético?
Do ponto de vista público, a iniciativa do projeto Adota uma estátua da Veneranda Fabbrica funciona como um mecanismo de circulação de memória. Obras históricas, retiradas em diferentes momentos por necessidades técnicas, retornam com narrativas adicionais — a da restauração, a da adoção corporativa, a da nova apresentação ao público — compondo um eco cultural que interroga não só o objeto, mas a comunidade que o acolhe.
Para quem observa com olhos de crítica cultural, a reinstalação do Santo barbuto com Libro ocorre num momento em que o patrimônio aparece cada vez mais como palco de negociações entre conservação, visibilidade e financiamento. A Fnm, ao aderir ao programa e apresentar a obra neste ponto simbólico de Milão, traduz a prática do patrocínio em gesto público: a escultura deixa o limbo das reservas técnicas e volta a oferecer ao transeunte — seja o turista, o trabalhador ou o morador — uma superfície de contemplação e de questionamento.
Mais do que um restauro bem-sucedido, o evento confirma uma tendência europeia de articular memória, cidade e responsabilidade compartilhada. O Duomo de Milão, com sua fisionomia coletiva, continua a ser um cenário de transformação onde cada intervenção é também uma reflexão sobre quem somos e sobre como desejamos preservar o legado que atravessa gerações.






















