Por Chiara Lombardi — Quando a música se comporta como um jardim, cada visita é uma colheita diferente. É com essa metáfora sensorial que Brian Eno retorna à Itália para habitar e reinventar alguns dos espaços mais emblemáticos de Parma: o Complesso Monumentale di San Paolo e o Ospedale Vecchio. O projeto, em cartaz de 30 de abril a 2 de agosto, é uma das propostas mais significativas do percurso do artista britânico — um encontro entre música ambiente, instalação audiovisual e arquitetura histórica.
Divide-se em dois eixos principais sob o guarda-chuva do projeto intitulado Seed. No coração dos jardins de San Paolo, surge a instalação site-specific Installation for Giardini di San Paolo, concebida por Brian Eno em parceria com a jornalista e escritora turca Ece Temelkuran. A proposta será apresentada ao público por cerca de três meses e, depois, ganhará uma segunda vida: a experiência sonora dos jardins será registrada em field recordings e impressa em vinil — uma única cópia assinada por Eno — que integrará a coleção permanente da Casa del Suono. É um gesto que transforma a efemeridade do ouvir em patrimônio tangível.
No outro polo da iniciativa, os imponentes corredores e a crociere do Ospedale Vecchio abrigarão My Light Years, descrita como a coleção mais completa já reunida das instalações e obras audiovisuais de Eno. Ver peças de diferentes épocas — algumas pioneiras no desenvolvimento do som ambiente — expostas num único e monumental lugar é, em si, um reframe da memória coletiva: um edifício que volta a cumprir a vocação pública e cultural que lhe cabe.
Eno define seu método com uma simplicidade que lembra um roteiro de cinema: “Fazer arte é como jardinar: você planta sementes e observa o que acontece”. Ele prefere o termo generativo para o que muitos chamam de procedural — obras que nunca estão totalmente encerradas, que se recombinam e se renovam a cada encontro. Essa lógica faz sentido quando pensamos no visitante que entra nos jardins de San Paolo: trata-se de um público convocado a perceber nuances, a experimentar variações sutis que só o tempo e o lugar podem oferecer.
Para Parma, cidade que soma patrimônio histórico e uma rica cena cultural, a chegada de Eno representa mais que um evento; é um diálogo entre passado industrial e a semiótica do contemporâneo. A produção sonora que vai para o vinil da Casa del Suono funciona como documento de uma experiência — um espelho sonoro do nosso tempo que vincula a cidade à genealogia do som experimental global.
Também cabe notar o contexto: quatro anos após sua última criação na Itália e após o Leone d’Oro alla carriera da Biennale di Venezia (2023), Eno volta com uma mostra que questiona a ideia de obra acabada e propõe a audiência como coautora. É uma convocação elegante e sutil para repensar o uso do espaço público, a preservação do patrimônio e a forma como armazenamos memórias culturais — como se a própria cidade se tornasse um set, e cada visitante, um operador de som clandestino.
Em suma, a presença de Brian Eno em Parma não é apenas um acontecimento artístico: é um pequeno terremoto cultural que nos convida a escutar com atenção, a olhar o lugar com novo enquadramento e a compreender que, às vezes, o roteiro oculto da sociedade se revela por meio de ondas, vinil e arquitetura. Um convite — quase um afeto — para redescobrir espaços que, silenciosos por tanto tempo, reaprendem a falar.






















