Por Chiara Lombardi — Em uma noite que se anuncia como ponto de inflexão, All Time Low sobe ao palco da Choruslife Arena em Bergamo celebrando duas décadas de trajetória, um novo álbum e um público que já não é apenas fã: é família. Do lado de fora do circuito mainstream, o quarteto do Maryland — Alex Gaskarth, Jack Barakat, Rian Dawson e Zack Merrick — transformou o que era outsider em uma voz veterana do pop-punk, e esta turnê europeia é a moldura onde se lê esse renascimento.
Com mais de 3,5 milhões de discos vendidos nos Estados Unidos e cerca de 5 bilhões de streams no mundo, os números corroboram um feito: desde 2003 os All Time Low preencheram arenas, quebraram recordes e emplacaram cinco álbuns consecutivos no Top 10 da Billboard 200. O retorno criativo do grupo veio no outono passado com Everyone’s Talking!, o décimo álbum de estúdio, que funciona como um reframe da identidade sonora da banda — mantendo a urgência pop-punk, mas expandindo timbres e narrativas.
Às vésperas do show em Bergamo — que representa um debut absoluto da banda na cidade — o vocalista Alex Gaskarth descreve um ambiente de turnê marcado por calor humano e pertencimento. “Tem sido muito animado. O que mais amo é que os shows viraram um espaço acolhedor para todo mundo que chega. As pessoas se juntam para criar um lugar seguro: deixar os problemas do lado de fora, entrar, esquecer, dançar e celebrar”. São palavras que revelam mais do que entusiasmo: delineiam o papel social do espetáculo, um espelho do nosso tempo onde a música atua como cena de transformação.
No repertório, a banda equilibra clássicos que definiram gerações com canções inéditas que apontam seu presente criativo. Criar a setlist entre dez discos é um exercício de memória coletiva: é preciso honrar os hinos que acompanharam adolescence e ao mesmo tempo abrir espaço para faixas que sustentam a evolução artística. O resultado, segundo Alex, é uma seleção diversa que agrada tanto aos saudosistas quanto aos curiosos do novo álbum.
Essa dinâmica — entre tradição e experimentação — é o roteiro oculto do fenômeno All Time Low. Eles não apenas performam; curam um território afetivo onde a história pessoal do fã encontra sequências melódicas que funcionam como atlas de identidade. O pop-punk, aqui, deixa de ser apenas um gênero e vira um mapa emocional: rachas, reconciliações, comédias e melodramas adolescentes reescritos em acordes de guitarra e refrões catárticos.
Em turnês pelos Estados Unidos, Austrália e Reino Unido, o quarteto tem sido recebido com um entusiasmo repetido, e Bergamo surge como mais um capítulo dessa celebração global. Para quem assiste, ver All Time Low hoje é testemunhar uma banda que transformou estatuto em responsabilidade cultural: manter a chama do gênero viva, acolher gerações e oferecer um palco onde cada canção funciona como janela para lembranças e futuros possíveis.
Se a música é um espelho da sociedade, a noite em Bergamo promete refletir uma cena madura do pop-punk — reconhecendo suas raízes, declinando velhos rituais e apontando para um amanhã onde a comunhão ao vivo se torna, mais do que nunca, casa. E isso, no fundo, é o que define a atual fase dos All Time Low: nem reinvenção pelo choque, mas uma renovação pelo afeto e pelo som bem trabalhado.






















