Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
O Museo Nazionale dell’Emigrazione Italiana (MEI), em Gênova, em parceria com a Federazione Italiana Sport Invernali (FISI), abriu um capítulo de memória e símbolo ao celebrar a trajetória de Nino Bibbia, detentor da primeira grande conquista italiana nos Jogos Olímpicos de Inverno: o ouro no skeleton em St. Moritz 1948.
Mais do que a rememoração de um feito esportivo, a iniciativa do MEI — que se estende também pelos canais digitais do museu — pretende ligar duas narrativas centrais para a compreensão da Itália contemporânea: a emergência de heróis esportivos e o fluxo migratório que moldou tantas identidades regionais. Nino Bibbia, nascido em Bianzone, na província de Sondrio, deixou a Itália aos 15 anos rumo à Suíça. Sua medalha, conquistada em um cenário europeu ainda marcado pelas perdas da Segunda Guerra, passou a simbolizar o início de uma tradição olímpica de inverno que chegaria, décadas depois, a brilhar novamente em solo italiano com as competições de Milano Cortina.
“Uma história fascinante, que nos lembra como a trajetória da emigração italiana se entrelaça com a história do nosso país, dialogando com a atualidade”, afirma Paolo Masini, presidente da Fundação MEI.
O trabalho de curadoria do museu inclui a difusão de imagens históricas e conteúdos multimídia que contextualizam o percurso pessoal de Nino Bibbia — do vilarejo alpino até o pódio olímpico — e a leitura desse percurso como parte de uma memória coletiva que atravessa gerações. Ao relacionar o feito de 1948 com a presença italiana nos Jogos de Milano Cortina, a exposição traça um fio que vai da deslocação individual à construção de uma identidade desportiva nacional.
A homenagem ganha também um desdobramento local: em breve, será inaugurado em Bianzone um novo Civico delle Radici, espaço concebido para resgatar e compartilhar as raízes da comunidade. No lugar que viu partir o jovem Bibbia, uma placa será afixada na casa que o acolheu antes do êxodo para a Suíça — gesto simbólico que devolve ao território a representação de uma narrativa que é, ao mesmo tempo, pessoal e coletiva.
Como analista atento às tramas sociais que o esporte desnuda, lembro que a história de Nino Bibbia não é apenas a crônica de um campeão; é a metáfora de uma Itália que se reinventa. A medalha em St. Moritz 1948 abriu caminho para uma relação entre comunidades alpinas e práticas esportivas de inverno, impulsionando clubes, federações e políticas públicas que, com o tempo, consolidaram uma cultura competitiva e formativa no alto da península.
Ao celebrar o passado, o MEI e a FISI oferecem ao público uma oportunidade de reflexão: o esporte como agente de mobilidade social e cultural, e as vitórias olímpicas como marcos que atravessam fronteiras e histórias de migração. Em uma época em que as narrativas nacionais são frequentemente fragmentadas, iniciativas que preservam e reinterpretam memórias são fundamentais para compreender quem fomos e o que desejamos ser enquanto comunidade esportiva e sociedade civil.
Nos próximos meses, portanto, espere do MEI um conjunto de materiais e eventos que ajudam a redescobrir Nino Bibbia — não somente como uma estatística nos anais olímpicos, mas como símbolo de um vínculo íntimo entre emigração, território e o surgimento da tradição olímpica de inverno italiana.






















