Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
O jogo de hóquei entre EUA e Dinamarca na Arena Santa Giulia, em Milano-Cortina, não é apenas mais um confronto olímpico na tabela: é um ponto de encontro onde memórias históricas e tensões geopolíticas se cruzam. Ao lado do espetáculo esportivo, permanecem camadas de contexto — da questão da Groenlândia à memória de confrontos que transcenderam as quatro linhas. São episódios que demonstram como o esporte pode tanto desafiar quanto ser instrumentalizado pela política.
Alguns episódios viraram imagens permanentes na memória coletiva. Em 22 de junho de 1986, no Estádio Azteca, Diego Maradona ofereceu ao mundo duas imagens: a “mão de Deus” e o drible que eliminou a Inglaterra na Copa do Mundo, num contexto ainda marcado pela Guerra das Malvinas — um exemplo brutal de como um gesto futebolístico pode carregar peso político e simbólico além do gramado.
Outro momento em que o esporte cruzou a linha que o separa da política foi em 13 de maio de 1990, no estádio Maksimir. Zvonimir Boban, então jovem jogador do Dinamo Zagreb, foi fotografado chutando um policial durante tumultos que antecederam uma partida contra a Estrela Vermelha de Belgrado. A cena, e a partida abortada, foram interpretadas por muitos como um sinal do colapso que culminaria na guerra dos Bálcãs — um lembrete de que eventos esportivos podem se afirmar como termômetros e catalisadores de crises maiores.
Nem sempre o confronto é aberto. No Mundial de 1998, em Lyon, Irã e Estados Unidos se enfrentaram sob o peso de décadas de tensão. Ainda assim, em campo surgiram gestos de reconciliação: flores entregues, abraços e um clima de respeito que transcendeu as narrativas políticas dominantes. Nesses 90 minutos, atores do esporte produziram um tipo de diplomacia pública que, em muitos casos, foi mais eficaz do que a ação oficial.
Há outros retratos emblemáticos: o único “derby” entre Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental na Copa de 1974, quando a partida no Volksparkstadion de Hamburgo não foi apenas um jogo, mas um encontro carregado de significado nacional e ideológico; e as Olimpíadas de Berlim em 1936, já na década anterior, que mostraram como regimes podem tentar apropriar-se do espetáculo esportivo para fins de propaganda.
Menções à maglietta rossa de Panatta e outras imagens italianas nos lembram que símbolos aparentemente discretos — uma cor, um gesto, uma camiseta — adquirem significado quando interpretados por plateias densas de história e política. O esporte, quando vive esses encontros, revela sua natureza dual: ao mesmo tempo palco de resistência e instrumento de legitimação.
Voltar a olhar para EUA x Dinamarca no gelo exige, portanto, uma leitura além do resultado. A presença de uma bandeira, as conversas sobre a Groenlândia (incorporada politicamente ao Reino da Dinamarca desde 1953, com autonomia interna desde 1979) e as tensões diplomáticas que marcam a agenda internacional imprimem um pano de fundo que transforma o jogo em gesto público e em ato simbólico.
Como repórter e analista, prefiro decantar episódios em vez de reduzir cada fato a manchetes. O esporte é um espelho: devolve à sociedade suas contradições, mas também sua capacidade de diálogo. Em muitos casos, um jogo consegue dizer ao mesmo tempo o que a política não pode admitir e o que ela, inevitavelmente, precisa enfrentar.
Na sexta-feira e no sábado, quando o disco cair no gelo de Santa Giulia, haverá quem veja apenas táticas, linhas e velocidade. Haverá também quem perceba — e registre — que cada partida carrega a possibilidade de perturbar, reafirmar ou reimaginar relações que, fora do estádio, parecem imutáveis. É aí que o esporte assume sua dimensão mais perturbadora e, por vezes, mais esperançosa.
Espresso Italia — Otávio Marchesini, repórter de Esportes






















