Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
Durou apenas algumas horas o mistério em torno da tocha olímpica desaparecida do Villaggio di Fiames, em Cortina. A peça — símbolo central da cerimônia e de grande carga simbólica para os Jogos — foi localizada pela Polícia graças às imagens dos sistemas de vigilância instalados para o evento.
Segundo a investigação, a tocha encontrada estava numa das acomodações ocupadas por um grupo de atletas. Em depoimento, os ocupantes classificaram o episódio como uma ‘goliardata’, uma brincadeira de mau gosto que acabou por transformar-se em incidente. As autoridades, contudo, mantêm a cautela: embora a versão dos atletas tenha sido aceita por ora, subsistiram suspeitas de que se tratou de um furto deliberado.
O caso foi inicialmente comunicado aos agentes na manhã de quinta-feira, 12 de fevereiro, depois de as equipes responsáveis pelo Villaggio notarem a ausência do objeto junto ao refeitório. A busca concentrou-se em quem tinha acesso à área restrita: atletas, técnicos e voluntários, uma vez que o local é off-limits ao público. Informações da sequência temporal indicam que o episódio ocorreu provavelmente na noite entre quarta-feira, 11, e quinta-feira, 12 de fevereiro.
O momento da constatação acrescentou camadas políticas e protocolarias ao episódio. A ausência da tocha foi percebida durante a presença do presidente da República, Sergio Mattarella, que participava de um almoço oficial em Cortina. A comunicação interna que culminou na denúncia às autoridades foi, segundo fontes organizativas, deliberadamente postergada até o fim da visita presidencial — possivelmente para não perturbar o clima institucional da ocasião.
Após a recuperação, a fiamma foi entregue de volta aos responsáveis da Fondazione Milano Cortina e será reposicionada no seu local original, em frente ao salão de refeições do Villaggio. A rapidez da resolução do caso deve ser atribuída ao conjunto de medidas de segurança implementadas para os Jogos.
Vale lembrar o valor simbólico e material do objeto envolvido. As tochas de Milano Cortina 2026, batizadas de Essential, foram desenhadas com enfoque na economia de meios e na centralidade da chama. Produzidas inteiramente na Itália, pesam cerca de 1,5 kg e utilizam materiais reciclados certificados, incluindo ligas de alumínio e latão. A própria estética — linhas limpas e paleta inspirada nos tons do céu e das paisagens — reforça a intenção de projetar simplicidade e identidade territorial.
Como analista atento às dimensões sociais do esporte, convém sublinhar que um episódio aparentemente menor como o sumiço momentâneo de uma tocha revela tensões maiores: quem tem acesso aos símbolos, como se gerem eventos com elevado aparato mediático e quais escolhas se fazem entre transparência e proteção das rotinas protocolares. Ato, símbolo e resposta institucional compõem aqui um corte transversal sobre as fragilidades e as precauções que cercam a espetacularização dos Jogos.
Enquanto a tocha retoma seu lugar físico, permanece a necessidade de reflexão: a segurança de objetos ceremoniais depende tanto de tecnologia e logística quanto de compreensão coletiva do que esses objetos significam.






















