Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
Em um gesto que mistura gesto esportivo e posicionamento ético, o treinador do Lecce, Eusebio Di Francesco, declarou publicamente seu apoio aos atletas palestinos e enviou uma mensagem durante a cerimônia em que o técnico da seleção da Palestina, Ehab Abu Jazar, recebeu a Panchina d’oro atribuída pela AIAC.
O prêmio foi entregue no dia 13 de fevereiro na Camera dei deputati, numa conferência organizada pelo Partito Democratico para apresentar um relatório sobre o estado do esporte na Palestina. A entrega foi feita pelo presidente da associação, Renzo Ulivieri, enquanto Di Francesco não pôde comparecer pessoalmente e optou por enviar um videomensagem que foi transmitida durante o evento.
Na gravação, Di Francesco enfatizou a admiração pelo trabalho do treinador palestino: “Sou orgulhoso de que, juntamente com minha associação, possamos entregar este prêmio especial pela sua dedicação, pelo que você está fazendo e pelos valores do esporte que leva a uma realidade de grande dificuldade como a palestina. Estamos todos com você. Estamos orgulhosos de lhe entregar este prêmio. Um grande abraço e força!”.
O ato simbólico de um técnico de clube italiano apoiando um colega da Palestina ganha significado quando colocado em contexto. Conforme o relatório apresentado na Câmara, desde outubro de 2023 até hoje foram contabilizados 684 esportistas mortos na Palestina, entre os quais 178 jovens entre 6 e 20 anos. O documento também registra a destruição de cerca de 290 estruturas esportivas entre Gaza e Cisjordânia — estádios, campos de futebol, ginásios e sedes de clubes — um aspecto que ilustra como o conflito atinge a infraestrutura social e a formação esportiva.
Não é a primeira manifestação de solidariedade pública de Eusebio Di Francesco em relação à situação humanitária na região. Em julho, em entrevista ao Repubblica, disse que, “Como pai e avô, não aceito o que está acontecendo com as crianças de Gaza” — palavras que agora ecoam ao lado do gesto de reconhecimento institucional ao técnico palestino.
Mais do que um prêmio individual, a entrega da Panchina d’oro a Ehab Abu Jazar e o apoio público de uma figura do futebol italiano funcionam como um espelho das tensões entre esporte e política: uma lembrança de que estádios e campos são também espaços de memória, formação cidadã e reconstrução social. Para além da efeméride, a ação reabre o debate sobre a responsabilidade das instituições esportivas e dos profissionais do futebol diante de crises humanitárias.
Enquanto o futebol segue sendo um paliativo cultural e uma das raras linguagens capazes de atravessar fronteiras, gestos como o de Di Francesco remetem à pergunta sobre como a comunidade esportiva pode contribuir para a preservação de infraestruturas, do direito ao treino e à educação física, e da proteção de jovens esportistas em contextos de conflito.
Otávio Marchesini — repórter de esportes, Espresso Italia






















