Lara Markthaler subiu ao cancelletto de partida em Cortina exatamente no dia em que completou 19 anos. A imagem é simbólica: não apenas o rito de passagem de uma jovem atleta, mas o momento em que se materializa uma nova geografia humana do esporte de neve. Em Milano‑Cortina ela entrou para a história como a primeira esquiadora sul‑africana a disputar os Jogos Olímpicos de Inverno.
Nascida em Munique, filha de pai alemão e mãe sul‑africana, Lara viveu parte da infância na costa oeste do Canadá antes de retornar à Europa aos 13 anos. A base de treinamentos alterna entre as Dolomitas e Innsbruck — territórios que, para além da técnica, constituem ecossistemas culturais onde se moldam identidades esportivas. Foi nas categorias de base da Alemanha que começou a se formar como competidora; mais tarde optou por competir sob a bandeira da África do Sul, decisão que reflete tanto uma estratégia de carreira quanto um exercício de agência individual num mundo esportivo cada vez mais móvel.
O apelido que a acompanha — Tornado rosa — sintetiza sua estética de pista: uma dança agressiva, esculpida no gelo, onde gravidade e desejo se combinam em linhas arrojadas. Fora das pistas, Markthaler busca “energia e diversão” em esportes como kitesurf e mountain bike, ingredientes que alimentam um estilo de ski menos ortodoxo e mais performático. Essa dimensão estética também circula nas redes: o perfil @spunkiiiiiii, aberto pelo pai quando ela tinha 13 anos, já soma cerca de cem mil seguidores e ajuda a consolidar uma marca pessoal — um crânio sorridente com rabo cor de rosa — que mistura referências de surf, moda e um certo espírito pop‑punk.
Competitivamente, Lara não é apenas uma influencer com esquis: aos 17 anos fez sua estreia em Copa do Mundo em Flachau, na Áustria, e já somou dois resultados entre as trinta melhores em etapas da elite. Também esteve presente em Mundiais, acumulando experiência contra as melhores da modalidade. A escolha por representar a África do Sul, explica a atleta, nasceu da vontade de escapar dos “imbus nacionais” — as peneiras que deixam talentos fora por conta de estruturas competitivas saturadas — e de medir-se imediatamente com as rainhas da neve.
Há uma leitura maior por trás dessa trajetória: estamos diante de uma nova geopolítica do esqui, em que mudanças de nacionalidade e trajetórias transnacionais reconfiguram hierarquias tradicionais. Para uma geração que cresceu com fronteiras fluidas, a bandeira que acompanha o atleta é, por vezes, uma escolha estratégica e simbólica. Markthaler aproveita essa fluidez sem cinismo — com pragmatismo geracional e uma certa ingenuidade criativa: “o mundo muda, tenta‑se fazer crescer novos movimentos; eu gosto de estar na parte mais exótica desse circo”, disse ela.
O percurso de Lara dialoga com lições contemporâneas do marketing esportivo. Seguindo caminhos já trilhados por nomes como Lindsay Vonn, a jovem busca atenção também fora das pistas, construindo um universo visual que amplifica sua voz e atrai patrocínios. Essa combinação de resultado esportivo e presença midiática é hoje um oxigênio necessário para modalidades que lutam por público e recursos.
Em termos mais amplos, a história de Markthaler nos força a repensar o significado de “representar”: não é apenas a cor de uma bandeira, mas a conjunção de uma trajetória pessoal, possibilidades institucionais e um mercado global que premia visibilidade. Se, por um lado, aparece como um caso singular — a primeira sul‑africana nos Jogos de Inverno —, por outro insere‑se num fenômeno crescente de atletas que redesenham as fronteiras do esporte.
Ao olhar para o futuro, há um horizonte claro: no calendário, o próximo ano está reservado para a disputa regular na Copa do Mundo. Para a narrativa coletiva, resta observar como essa jovem – apelidada de Tornado rosa – vai transformar a visibilidade conquistada em legado. Não apenas em resultados, mas em capacidade de tornar o esqui mais plural, mais transnacional e, portanto, mais representativo do tempo presente.
Sou Otávio Marchesini, repórter de esportes da Espresso Italia: acompanho com atenção esses deslocamentos porque, em cada mudança de pista, se lê um capítulo da nossa história coletiva.






















