Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em meio à atmosfera oficial que rodeou a abertura dos Jogos de Inverno Milano Cortina, uma cena de proximidade aconteceu na periferia de Milão. O príncipe Eduardo, duque de Edimburgo e irmão do rei Carlos III, dedicou parte da sua passagem por Milão a uma visita à associação L’Amico Charly, apoiada pela Fundação Laureus, onde participou de atividades com jovens atendidos pelo projeto.
Acompanhado pelo cônsul-geral britânico Kassim Ramji, o príncipe circulou pelos espaços da entidade: jogou ping-pong com os jovens, perguntou às meninas sobre aulas de dança, e aceitou com atenção uma bola autografada pelos garotos do projeto de futebol. Ao receber o presente, chamou os jovens para perto, perguntou sobre seus sonhos e demonstrou interesse pela trajetória individual de cada um — gestos simples, mas que têm significado simbólico quando realizados por uma figura institucional.
No pequeno estúdio de gravação da associação, Eduardo permaneceu por alguns minutos e, segundo quem acompanhou a visita, pareceu reencontrar afinidades com a música e o teatro. Ao longo da noite, encontrou-se com educadores e equipe que trabalham diariamente para transformar o esporte em instrumento de inclusão social.
A visita do duque insere-se numa continuidade histórica: filho do príncipe Filipe, que em meados do século XX patrocinou os Duke of Edinburgh Awards para promover formação e desenvolvimento juvenil, Eduardo tem buscado prolongar esse legado. O historiador Hugo Vickers, que conhece a família real, lembrou que Eduardo tem assumido com entusiasmo a herança do pai, ganhando respeito por sua atuação junto a programas que unem esporte, formação e cidadania.
A diretora da Laureus Itália, Daria Braga, e Alessandra Monaco, presidente da associação L’Amico Charly, apresentaram ao príncipe o trabalho local: projetos esportivos, oficinas educativas e iniciativas que atuam no combate ao desconforto social entre adolescentes das periferias. A Fundação Laureus, fundada em 2000 e inspirada pela ideia de Nelson Mandela de que o esporte pode mudar o mundo, opera na Itália desde 2005 com foco na redução de desigualdades e nas redes locais que colocam o esporte no centro de processos de desenvolvimento.
Embora a visita fosse essencialmente simbólica e humana, ela também tem um componente prático: usar a visibilidade das Olimpíadas Milano Cortina para iluminar projetos que muitas vezes ficam fora do foco midiático. Em tempos nos quais o esporte é frequentemente analisado por seus impactos econômicos e de espetáculo, atos como este lembram sua capacidade de formar, integrar e oferecer rotas de esperança.
Após a passagem pela capital lombarda, o calendário do príncipe prevê deslocamento para as neves de Livigno, onde deverá acompanhar outras provas relacionadas aos Jogos. A sequência — centro urbano, periferia, montanha — é simbólica: entrelaça os diferentes territórios que o evento olímpico toca e evidencia a complexidade de um grande acontecimento esportivo que ultrapassa as arenas.
Mais do que anedota social, a presença do príncipe Eduardo em L’Amico Charly funciona como um lembrete institucional de que programas de base merecem atenção pública. Para quem acompanha o esporte como fenômeno social, a cena confirma que legados pessoais, como o dos Duke of Edinburgh, continuam a moldar políticas de juventude, ao passo que a atenção institucional pode reavivar redes locais de apoio e reconhecimento.
Ao final da visita, os jovens retornaram às suas atividades cotidianas; o encontro, porém, deixou matéria-prima para narrativas futuras — sobre trajetórias individuais, sobre como o esporte opera em territórios periféricos e sobre o modo como figuras de Estado dialogam, com sobriedade e presença, com as questões sociais contemporâneas.






















