Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Há centros esportivos que são mais do que instalações: são produtores de memória, de carreiras e de símbolos coletivos. O IceLab, com base em Bergamo e operação também em Assago e Sesto, é um desses lugares — uma fábrica de excelência no mundo do gelo onde, nos últimos anos, se formaram e treinaram atletas que traduzem, em medalhas e performances, a centralidade do esporte para identidades locais e internacionais.
São cerca de 700 atletas vinculados ao grupo esportivo. Entre eles, nomes que já viraram referência: Arianna Fontana, paradigma do short track italiano; os pares de patinação artística Charlène Guignard e Marco Fabbri; os solistas Matteo Rizzo e Ilia Malinin; e duplas como Rebecca Ghilardi e Filippo Ambrosini. O elenco é, literalmente, um mapa das principais narrativas da patinação recente — resultados olímpicos, revoluções técnicas e trajetórias pessoais que atravessam clubes, federações e países.
O episódio mais imediato dessa história foi visto nos Jogos: a emoção de Guignard e Fabbri patinando ao som de “Diamanti”, de Giorgia, e a euforia em frente ao telão onde se acompanhou a final dos 500 metros — ocasião em que a presidente do IceLab, Federica Pesenti, celebrou os êxitos do grupo. Naquele momento, entre aplausos e lágrimas contidas, percebeu-se que o IceLab deixou de ser apenas um nome para se tornar uma espécie de selo qualitativo do que é patinar bem na Itália.
Pesenti fala sem vaidade: «Siamo apprezzati per tante cose — e, più di ogni altra, il riconoscimento vero è sapere che ci sono in pista una gran parte dei miei atleti». O orgulho é compreensível. Há, no portfólio do centro, medalhas que não são apenas objetos, mas indicadores de um projeto que alia gestão, técnica e sustentabilidade.
O IceLab é, de fato, um dos seis centros de excelência reconhecidos pela ISU (International Skating Union). Esse selo não cai do céu: é resultado de relatórios anuais que avaliam desde a sustentabilidade financeira até a qualidade do staff técnico e dos resultados esportivos. É também um atestado de que a patinação italiana — fruto de clubes, investidores e famílias — constrói, em Bergamo e arredores, uma estrutura capaz de competir com polos tradicionais do Leste Europeu e da América do Norte.
Não faltam tensões no cenário: Pesenti lamenta que, após as olimpíadas, não tenham permanecido heranças de infraestrutura em Milano — um problema recorrente na história das cidades-sede. Ao mesmo tempo, revela prontidão para expandir: «siamo pronti a raddoppiare a Bergamo», diz, sinalizando uma ambição de concentrar mais recursos onde o projeto já demonstrou eficácia.
Há também aspectos culturais e econômicos: assistir a uma final em Assago implicou ingressos a preços estratosféricos — relato que aponta para a mercantilização dos grandes eventos — enquanto em Bergamo se constrói uma narrativa mais orgânica, centrada na formação e no quotidiano dos atletas. Essa tensão entre espetáculo e formação define, em grande medida, o futuro do esporte no país.
O IceLab é uma janela para entender como o esporte moderno se organiza: não apenas como competição, mas como ecossistema. Lá se cruzam memórias de clubes, trajetórias de técnicos estrangeiros, a economia local e — acima de tudo — a ambição de transformar talento em legado. Se o gelo guarda marcas efêmeras de piruetas e saltos, instituições como o IceLab são as que tentam tornar essas marcas permanentes.






















