Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
A trajetória de Martina Caretta confirma uma ideia que sempre defendi: o esporte é, antes de tudo, laboratório social. Nascida em Bari e forjada nas quadras da Apúlia, Martina não apenas deixou uma carreira no basquete profissional — incluindo passagens por Bitonto, Brindisi, Monopoli, Santeramo e Bari —; ela transformou a experiência atlética em uma segunda vocação: a comunicação e a imagem pública. Hoje, além de professora e profissional de comunicação, atua também como modelo, sem, contudo, renegociar seu passado esportivo.
“O basket foi o meu primeiro grande mestre”, costuma dizer. A frase não é mero elogio romântico: é diagnóstico. Para Martina, as vitórias e as derrotas, as derrotas que ensinam e as partidas decididas no último segundo, foram a escola que moldou a sua disciplina e caráter. E há ali uma marca familiar clara: o pai, Angelo, treinador conhecido na região da Puglia, foi figura central no início da sua carreira. Não apenas como apoio afetivo, mas como arquiteto de método e exigência. Em suas palavras, foi ele quem lhe ensinou que talento sem caráter não basta e que a capitulação mental é a única derrota irreparável.
A história do primeiro contato com a bola — relutante, quase por imposição paterna — guarda elementos quase rituais: o cheiro do ginásio, o som do couro batendo no parquet, a sensação de estranhamento transformada em pertencimento. Esses detalhes narram uma passagem frequente mas sempre singular: o momento em que o desinteresse se converte em língua materna. Para Martina, o basquete virou casa.
Em campo, conta-se um episódio emblemático: num jogo complicado, depois de uma substituição, seu pai e treinador a observou em silêncio, ergueu-lhe o olhar e a reencaminhou para a quadra. Poucas palavras, atitude decisiva. Lições daquele tipo não evaporam. São aplicadas hoje nas salas de aula, nas estratégias de comunicação que ela concebe para atletas e equipes, e também na construção da própria imagem pública.
A decisão de “dizer adeus à A” — a Serie A do basquete — para dedicar-se à comunicação e à carreira de modelo é, à primeira vista, uma mudança de rota profissional. Mas, lida com um olhar mais atento, é continuidade. Martina converte as ferramentas do esporte — gestão de pressão, trabalho coletivo, disciplina cotidiana — em repertório para orientar jovens, produzir conteúdo e atuar como interlocutora entre o mundo esportivo e a opinião pública.
Isso a coloca num papel duplo e estratégico: de um lado, a ex-atleta que conhece as rotinas e as frustrações dos clubes italianos de base; de outro, a profissional que fala a língua dos meios, das marcas e da formação. Seu percurso evidencia como o esporte contemporâneo exige multiplicidade: o jogador não é mais apenas um executor, mas também um narrador, um líder e, por vezes, um agente cultural.
Observando a carreira de Martina Caretta, fica claro que seu movimento não é fuga do esporte, mas tradução. Ao transformar-se em professora e comunicadora, ela amplia o alcance do que aprendeu em quadra. Ao aceitar trabalhos como modelo, expõe — e ao mesmo tempo normaliza — a ideia de que a identidade de ex-atleta pode ser plural, híbrida e produtiva.
Em termos mais amplos, a opção dela também é reflexo de mudanças no ecossistema esportivo italiano: a crescente demanda por formação comunicativa, a valorização da imagem e a profissão que exige do ex-atleta competências além do físico. Para quem estuda o esporte como espelho social, a história de Martina é um estudo de caso: memória, transição profissional e a reinvenção da autoridade pessoal.
Sem histeria nem mitificação, Martina segue sendo o que sempre foi: uma ex-jogadora cuja experiência continua ativa. Ela não abandonou o basquete; reorganizou-o como matriz cultural e profissional. E, ao fazer isso, deixa um recado simples e relevante para jovens atletas: a carreira pode mudar de formato, mas as lições aprendidas no campo — disciplina, caráter, resistência — permanecem.
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