Por Otávio Marchesini — Em Cortina d’Ampezzo, a dimensão das Olimpíadas extrapola as pistas. À sombra das competições, formam-se territórios sociais e simbólicos que dizem tanto sobre o esporte contemporâneo quanto os resultados: são as Casas das seleções, os bares que viram praças públicas e as manifestações de torcedores que transformam a vila numa pequena polis efêmera.
Não são apenas os endereços mais elegantes ou as vitrines a atrair olhares: as chamadas Casas das nacionais, organizadas pelos comitês olímpicos, tornaram-se nodos de convivência e exposição. Espaços concebidos como vitrines — de identidade, design e patrocínio — passam o dia recebendo imprensa, atletas e curiosos, e à noite se convertem em palcos de celebração.
Exemplo típico é a Casa Italia, instalada na centralíssima Galleria Farsetti. Aberta ao público desde a manhã, a Casa funciona como ponto de encontro para a imprensa durante o dia e, ao cair da tarde, como opção para aperitivos e jantares que valorizam a relação entre esporte, arte e design. Não é raro cruzar por ali nomes como Sofia Goggia, Federica Brignone, Amos Mosaner ou Stefania Constantini — atletas que, além de símbolos esportivos, assumem papel de anfitriões e embaixadores.
Outro epicentro da vida social é a House of Switzerland, situada em via dello Stadio, a poucos passos do curling e da pista de bobsleigh. Os organizadores reproduziram um refúgio alpino em madeira; a partir da ampla varanda, um maxi ecrã permite acompanhar as provas enquanto se saboreia um coquetel. No piso, uma pista de curling em miniatura convida os visitantes a brincar de atletas; há também um bob vermelho em exposição e um corner patrocinado por relógios Swatch para fotos instantâneas — elementos que mesclam memória olímpica e marketing experiencial. O bar do local, onde a cerveja chega a custar 8 euros, torna-se ponto de encontro ao entardecer: canecos nas mãos, conversas sobre corridas e técnicas, e uma cena multicultural que reúne torcedores de várias nacionalidades.
Também visível na geografia festiva de Cortina está a presença da Casa Austria, alojada no agriturismo Jägerhaus – Ghedina, na zona de Candin. O comitê austríaco trouxe para a Conca um conjunto tirolês que organiza pequenos concertos ao longo do Corso Italia e distribui convites e vouchers para o espaço principal. Entre instalações artísticas e ações de hospitalidade, sobressai a obra da artista tirolesa Patricia Karg: uma grande escultura em forma de coração pulsante, vocacionada para unir tradição e contemporaneidade.
As imagens das festas — dos bailes improvisados de Federica Brignone ao público entusiasmado, passando pelos grupos de escoceses em kilt caminhando sob a neve — são mais que cenas pitorescas. Elas traduzem como a megaevento mobiliza identidades, cria rituais efêmeros e reconfigura espaços urbanos. É nessa interseção entre espetáculo e convivência que o legado cultural das Olimpíadas se revela: não apenas em medalhas, mas em narrativas coletivas que se constroem nas esquinas, nas praças e nas casas nacionais.
Observar Cortina nesses dias é observar uma cidade em trânsito entre duas temporalidades: a imediata — feita de resultados e manchetes — e a duradoura — composta por memórias, imagens e hábitos que permanecerão na lembrança local e entre os visitantes. As Casas das delegações, os bares com preços e rituais específicos e os foliões que desafiam o frio com trajes tradicionais são peças de um mosaico que fala muito do esporte como fenômeno social: intensamente competitivo, claramente mercantilizado e, ao mesmo tempo, profundamente humano.
Enquanto as provas continuam a ditar o calendário competitivo, a vida extramuros confirma que as Olimpíadas também são uma festa de identidades. E em Cortina, essa festa tem sabor de montanha, de design e, ocasionalmente, de caneco de cerveja na mão.






















