Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
Um momento histórico entre neve e chuva
Na pista mista de Bormio, sob neve molhada e chuva, um gesto tornou-se símbolo: um esquiador que, com a mesma naturalidade com que dança, escreveu o nome do Brasil na história dos Jogos Olímpicos de Inverno. Aos 25 anos, Lucas Pinheiro Braathen venceu o gigante de Bormio e conquistou a primeira medalha olímpica de inverno para o Brasil — um ouro que reverbera além do esporte.
Como foi a corrida
- Primeira manche: Lucas Pinheiro Braathen estabeleceu vantagem decisiva com uma descida agressiva e técnica, colocando pressão sobre os favoritos.
- Segunda manche: sob ataque dos suíços — sobretudo Marco Odermatt e Marc-Andre Meillard — o brasileiro resistiu ao assédio e manteve a liderança.
- Na chegada, exausto, ele celebrou com um grito de alegria: “Vamooooss!!!”.
- O suíço Odermatt levou a prata; outros favoritos, como o italiano Filippo Vinatzer, ficaram fora na segunda descida. Giovanni Franzoni terminou distante.
Trajetória e decisão esportiva
Nascido em Oslo, Lucas Pinheiro Braathen competiu pela Noruega até 2023. A mudança de nacionalidade, para representar o Brasil — país de origem materna, Alessandra — foi motivada por um desgaste com a federação norueguesa, sobretudo sobre gestão de imagem e patrocínios. Trocar a excelência técnica de uma estrutura escandinava por um projeto próprio foi decisão arriscada e controversa no universo do esqui.
Antes da mudança, Braathen já tinha currículo: campeão da Copa do Mundo no slalom, com seis vitórias representando a Noruega. Fez uma pausa de um ano para reorganizar sua equipe e levar a bandeira verde e amarela às pistas de alta montanha. Em novembro, já havia mostrado o caminho ao vencer o slalom em Levi — um aviso do que viria em Bormio.
O atleta além do pódio
O perfil de Lucas Pinheiro Braathen ultrapassa a dimensão da performance. Filho de uma história dividida entre dois continentes, descobriu o esporte na neve depois de uma infância entre o futebol em São Paulo e os treinos na Noruega. Sua imagem pública mistura esporte, moda e identidade: esteve presente em eventos de passarela, não temeu expressões pessoais como o uso de esmalte nas unhas e disputou a gestão de sua própria imagem como parte de sua autonomia.
Para Braathen, representar o Brasil não foi apenas uma escolha burocrática — foi uma declaração: “Quero ser fonte de inspiração para milhões de pessoas”, disse na época da mudança. Hoje, com o primeiro ouro olímpico do país no Inverno, essa ambição ganha substância.
Significados socioculturais e institucionais
Do ponto de vista institucional, a vitória de Lucas Pinheiro Braathen expõe algumas questões sobre o esporte globalizado:
- Atletas transnacionais que fogem de estruturas rígidas em busca de autonomia e controle de imagem.
- O papel das federações nacionais na gestão de carreira de talentos que se movem entre mercados e culturas esportivas.
- O potencial simbólico de uma medalha de Inverno para uma nação tropical, capaz de inspirar investimentos, formação e visibilidade internacional.
Num país em que esportes de neve têm infraestrutura limitada, o efeito imediato será sobretudo simbólico: atrairá atenção da mídia, patrocinadores e jovens que podem enxergar novas possibilidades. A longo prazo, pode abrir debates sobre políticas públicas de fomento, parcerias internacionais e criação de programas de base.
Reações e avaliação técnica
Figuras históricas do esqui elogiaram a conquista. Marc Girardelli, cinco vezes vencedor da Copa do Mundo, destacou que caracteres como o de Braathen são importantes para fomentar o interesse pelo esporte: “Há necessidade de mais personagens com essa capacidade de atrair público”.
Taticamente, a prova mostrou duas virtudes do novo campeão: agressividade no traçado e capacidade de administrar pressão frente a adversários tecnicamente superiores em estruturas coletivas, como os suíços. Essa combinação fez a diferença em pista molhada, onde o risco calculado e a adaptabilidade às condições climáticas definiram o resultado.
O que vem a seguir
- Impacto imediato na imagem do Brasil nos esportes de inverno e na carreira de Lucas Pinheiro Braathen.
- Possível aumento de patrocínios e convites para eventos globais que mesclam esporte e cultura.
- Debate sobre modelos de apoio a atletas transnacionais e projetos de base no hemisfério sul.
Em resumo, a conquista de Lucas Pinheiro Braathen em Bormio não é apenas uma vitória esportiva: é um acontecimento que cruza identidade, política esportiva e transformação simbólica. Em uma era em que o esporte se encapsula em narrativas além do resultado, esse ouro do Brasil nos Jogos de Inverno será lembrado como um dos gestos que redesenham as fronteiras do que é possível.
14 de fevereiro de 2026 — Bormio






















