Por Chiara Lombardi — Em tempos em que a narrativa televisiva funciona como espelho do nosso tempo, a diferença entre técnica e amadorismo assume contornos quase cinematográficos. Na cobertura da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, o contraste ficou claro: enquanto a Eurosport oferecia um roteiro cuidado e cheio de camadas, a transmissão da Rai deu a sensação de um filme mal dirigido, onde os atores não encontram o tom.
O principal alvo das críticas foi o diretor de Rai Sport, Paolo Petrecca. O veredito coletivo — «ignorância esportiva abissale» — não surgiu por acaso. Em diversos momentos, Petrecca demonstrou desconhecimento sobre identidades e contextos dos atletas, substituindo análise por divagação. Pior ainda: ignorou o silêncio como ferramenta narrativa. Lembrando uma máxima wittgensteiniana, quem não sabe falar, frequentemente não sabe calar. Esses silêncios carregados de significado, especialmente durante uma cerimônia que se alimenta de símbolos, foram profanados por comentários desajeitados.
Se não fosse a presença de Fabio Genovesi, que tentou imprimir uma profundidade necessária ao quadro, estaríamos diante de uma das piores telecronache da história recente da emissora pública. Mas a responsabilidade não recai apenas sobre o comentarista em si: trata-se de uma nomeação e de um aparato editorial que, mesmo sob críticas, permanece intacto. A questão é institucional.
Do outro lado, quem trocou de canal — numa migração cada vez mais fácil, graças à distribuição em plataformas como Discovery+ e Amazon Prime — assistiu a uma verdadeira aula. A equipe do Eurosport, composta por Luca Gregorio, Massimiliano Ambesi e Davide Livermore, apresentou uma narrativa tecnicamente sólida e culturalmente enriquecida. Gregorio mostrou-se uma presença segura; Ambesi, um enciclopédico capaz de dar rosto e história até ao último coadjuvante; Livermore trouxe espessura cultural — uma camada que transformou a transmissão em algo que ultrapassa a mera lista de resultados e tempo cronometrado.
O resultado foi um verdadeiro massacre mediático: de um lado, a discrição profissional e documentada do Eurosport; do outro, o ruído e a aproximatividade do chamado «serviço público». É importante lembrar que um decreto ministerial garante à Rai o direito de transmitir «eventos nazionali di particolare rilevanza». Contudo, privilégios dessa natureza deveriam ser sustentados por mérito. Hoje, a paisagem midiática permite que vários network transmitam em claro — o que significa que o público pode escolher quem melhor traduz o acontecimento em narrativa relevante.
Observando esse confronto, surge uma pergunta maior, quase cinematográfica: qual é o roteiro oculto da nossa sociedade quando o veículo público, destinado a refletir e educar, perde a sua bússola profissional? A resposta não está só na incompetência de um nome, mas no sistema que a tolera. A cobertura esportiva, como um bom filme, exige direção, roteiro e elenco à altura — sem esses elementos, resta apenas o vazio da imagem.
8 de fevereiro de 2026





















