Ermal Meta volta ao palco do Festival de Sanremo com uma canção que atua como um espelho do nosso tempo: Stella Stellina. Para o cantautor ítalo-albanês, esta é mais uma etapa numa carreira que sempre dialogou com o presente — das violências domésticas de Vietato morire às feridas abertas dos atentados celebrados em “Non mi avete fatto niente”, até a nova narrativa sobre a infância atingida pela violência em Gaza.
No anúncio do single, Ermal Meta explica que a letra nasceu entre uma improvisação de berço e o choque da imagem. Cantando para a filha, Fortuna, ele criou uma pequena canção de ninar — e, ao recordar um vídeo protegido por aviso de conteúdo sensível, foi atravessado pelo olhar de uma menina de Gaza. Dali nasceu a ideia de contar essa história «sem nome»: uma criança cujo rosto e voz representam muitas outras.
«A protagonista não tem nome, como o seu povo muitas vezes não tem voz», diz o artista, propondo um reframe que transforma uma melodia íntima numa denúncia. Ele insiste: não está a falar de “guerra” no sentido clássico de confronto entre dois exércitos — «a guerra é aquela fra due eserciti e qui ne vedo uno solo» —, mas de um massacre que tem durado décadas e que, para ele, exige ser nomeado em palco.
Questionado sobre possíveis reações da política, Ermal Meta mantém a postura de quem crê na música como direito e responsabilidade: «Non ho paura delle reazioni della politica. Un cantautore ha il compito di raccontare ciò che sente senza filtro». Para Chiara Lombardi, observadora cultural, essa declaração é o roteiro oculto da arte comprometida: quando o entretenimento assume o papel de testemunha, provoca debates e reposiciona consensos.
Além da canção, o artista traz à luz um capítulo pessoal: a família. A pequena Fortuna — mencionada como inspiração melódica — convive num lar expandido; segundo Meta, o casal adotou duas jovens albanesas de 18 anos, Klodjana e Lumturije, acolhidas através da Casa Rosalba, em Lezhë. Nos momentos em que o assunto Gaza é trazido para a casa, a reação das jovens é o silêncio — talvez medo, talvez a impossibilidade de traduzir em palavras um sofrimento tão grande.
Esta participação no Festival soma-se às anteriores: é a sexta vez de Meta em Sanremo, contabilizando também a experiência inicial com a banda La fame di Camilla, e o triunfo em 2018 ao lado de Fabrizio Moro. Em cada entrada, há um fio condutor — a voz das vítimas, daqueles que são marginalizados pelo discurso público. Com Stella Stellina, ele escolhe de novo alinhar sua arte com esse eco cultural.
Como observadora do fenômeno, eu, Chiara Lombardi, vejo em Stella Stellina algo mais que uma canção de contestação: é a semiótica do viral transformada em melodia de ninar. O que transforma uma música em notícia não é apenas a coragem em tocar um tema sensível, mas a capacidade de traduzir um olhar — o olhar da criança gazawa que «buca» quem assiste — em uma narrativa que exige resposta. A música, quando se recusa a ser neutra, reconfigura o cenário de transformação social.
Meta não se coloca como martírio nem como provedor de conclusões prontas; antes, convoca o público a olhar para além do título e do refrão: a canção pretende dar voz às vozes caladas. E, como em um bom filme que deixa o espectador com perguntas abertas, Stella Stellina se apresenta como um refrigério melódico que incomoda, convoca e, sobretudo, pede escuta.
Para quem acompanha Sanremo e o uso político da canção, a nova proposta de Ermal Meta é um convite ao debate. Ele diz que está pronto para críticas e para exercer o seu direito de liberdade de expressão — um ato que, numa democracia, tem tanto valor quanto a própria canção.






















