Por Chiara Lombardi — Em sua nova releitura de Cime tempestose, Emerald Fennell confirma o mesmo ímpeto estético de Uma Mulher Promissora (2020) e do perturbador Saltburn (2023): uma visão afiada, sedutora e deliberadamente estilizada. Mas ao transferir o drama gótico de Emily Brontë para um universo visual polido e digital, a diretora dilui — e às vezes apaga — a aridez revolucionária que fez do romance original um espelho oblíquo do seu tempo.
O que vemos na tela é, acima de tudo, um espetáculo cuidadosamente pavimentado: paisagens emocionais amplificadas por uma direção de arte que prefere o brilho ao lodo, a elegância ao suor. Não falta fogo — pelo contrário: a relação entre Catherine e Heathcliff torna-se uma atracção elétrica, carnal e fatal, que arde com intensidade primitiva. Porém, a fogueira que Fennell acende é mais sensual-show do que insurgente. O corte transgressor do texto-brasileiro britânico é trocado por um reframe pop, que aproxima personagens e público através de uma estética contemporânea e globalizada.
Margot Robbie e Jacob Elordi encarnam Catherine e Heathcliff com uma química explosiva: ela, a filha inquieta do severo Lord Earnshaw; ele, o órfão recolhido no cais, destinado a ser ao mesmo tempo servo e sombra. Seus encontros no filme são entregues aos sentidos — mãos que se procuram, bocas que prometem, olhares que perfuram — e a tensão erótica cresce até a beira da demência. A cena do casamento, por exemplo, desloca o drama para o território da moda: um desfile de escolhas quase kitsch, onde o vestido nupcial vira ícone de estilo e o visual da noiva remete tanto a óculos de festival quanto a lingeries evocativas de outras eras.
Fennell não resiste a referências pop explícitas — alusões a Nove semanas e meia, a visuais quase de catálogo e a um romanticismo cinematográfico reciclado que lembra tanto um Via col vento estilizado quanto um Brivido caldo contemporâneo. O resultado é uma releitura que transcende a cronologia: a bruma e as falésias do Yorkshire continuam lá, mas parecem habitadas por um público e uma linguagem que pertencem a qualquer lugar multirracial e mediado por telas.
O grande problema não está na qualidade do espetáculo — ela existe e é impressionante — mas na perda de uma dimensão subversiva que, no romance, questionava laços de classe, identidade e violência afetiva com uma ferocidade quase política. Aqui, a transgressão cede espaço a um erotismo cuidadosamente coreografado e à pulsão estética. É como se o roteiro oculto da sociedade fosse substituído por um roteiro oculto da moda e do desejo: um eco cultural que encanta, mas não perturba até o cerne.
Em resumo: a nova Cime tempestose de Fennell é um filme que seduz e irrita em igual medida — um objeto de consumo emocional polido, que reimagina o clássico como espetáculo sensorial. Para quem busca o drama visceral e a subversão crua do original, falta algo. Para aqueles que aceitam o rebanho estético como forma legítima de releitura, o filme oferece um banho de paixão e estilo capaz de incendiar telas e discussões.






















